quinta-feira, junho 10, 2004

bb

Brigitte Bardot condenada ao pagamento de multa por declarações racistas


devia era ser sodomizada por todos os animalzinhos que defende.

se calhar até gostava:prefere os animais às pessoas. grande cabra!

terça-feira, junho 08, 2004

a importância de ser o testículo direito

descíamos os três por uma rua do bairro alto, numa noite quase de despedida: eu de partida para o brasil, a rita q. rumo a itália. as suas duas amigas desertavam, deixavam-no só, para trás, com bebedeiras prometidas aos fins de semana com outros amigos, coisa de interesse, com umas gajas à mistura, quem sabe, mas no fundo, no fundo, sempre suspirando por uma paixão. a certa altura exclamou:

- vocês não podem ir embora! caramba... vocês são os meus testículos, porra!

voltamo-nos as duas para trás, gargalhamos qualquer coisa, e de imediato ficou decidido: pelos discursos políticos, eu seria o testículo da direita, a rita seria o da esquerda.

para as pessoas que não nos conhecem, pode parecer estranho que nos tenha agradado sermos os testículos de um homem. no caso do sérgio, ambas sabíamos que isso era a sua grande declaração de amizade. sim, porque também as há, as declarações de amizade. esta foi a declaração de amizade mais supreendente que ouvi. e que perdura no tempo.

é um prazer ser o seu testículo direito (sem conotações sexuais, por favor!). ou seja, é um prazer ser sua amiga.

se sou o seu testículo direito, sem dúvida ele é o nosso filho adoptivo.

crava-nos jantares e livros. liga-nos às 10 da noite para saber por onde andamos. esquece-se quase sempre que nunca temos cerveja em casa. descalça os sapatos na sala.

- tenho frio nos pés, porra!

respondo:

- tens as meias rotas...!

espoja-se no sofá, na rede, come-nos os queijos e os enchidos (é um alarve...). quando fazemos um acepipe, telefono-lhe:

- hoje fiz sopa de cebola gratinada com queijo, queres vir jantar?

- já que insistem...!

é desbocado, bonito e faz-nos acordar cedo num domingo chuvoso para o ir esperar à meta da meia maratona de lisboa.

não ouve música de qualquer espécie: é capaz de andar quilómetros com o rádio do carro a emitir apenas ruído (como é que isto é possível?).

despenteia-me como se eu fosse um puto (à terceira vez começa a enervar-me).

falamos de como e quando fazer cócó nas viagens: do alto da sua sabedoria e vasta experiência, explica que o macdonald´s garante sempre um serviço higiénico de qualidade e é sempre o primeiro a levantar o selo que comprova a limpeza imaculada das sanitas dos aviões.

já passei de carro pela rotunda do relógio, a ouvir o hino do ppd-psd aos altos berros e com ele de punho erguido (que contra-senso!) a gritar cavaco! cavaco! não estavamos sequer em período eleitoral.

casa-se no próximo mês, tem 29 anos e é um pornófilo assumido. prefere o sexy hot ao canal playboy (isto diz tudo). e por favor, não vamos discorrer aqui sobre os seus momentos de qualidade consigo próprio...

exigiu-me uma ode neste singelo blog quando me ofertou desinteressadamente um livro sobre palácios de goa.

o que ele não sabe é que não precisava de me oferecer o dito livro (que prontamente aceitei): já tinha uma ode prometida desde que nos conhecemos numas férias de verão, há 13 anos atrás, nas bancadas do campo de futebol da portela de sacavém.

domingo, junho 06, 2004

lagarto, lagarto, lagarto

qual a probabilidade de ambos os veículos de um casal se estragarem no espaço de uma hora?

hoje à tarde?

100%.

isso mesmo: numa hora partiu-se a correia da ventoinha de um, descolou-se o vidro do pendura e avariou-se o rádio do outro.

temos de ir à bruxa!

domingo, maio 30, 2004

diálogo

homem - sabes qual é a parte favorita do meu dia?
mulher- não.
homem - é quando venho para a cama contigo e me anicho e enrosco em ti e adormeço ao teu lado.
mulher - (sorri)

pobre d. sebastião...

Os Demónios de Alcácer Quibir

O D. Sebastião foi para Alcácer Quibir
de lança na mão, a investir, a investir,
com o cavalo atulhado de livros de história
e guitarras de fado para cantar vitória.

O D. Sebastião já tinha hipotecado
toda a nação por dez reis de mel coado
para comprar soldados, lanças, armaduras,
para comprar o V das vitórias futuras.

O D. Sebastião era um belo pedante
foi mandar vir para uma terra distante
pôs-se a discursar: isto aqui é só meu
vamos lá trabalhar que quem manda sou eu.

Mas o mouro é que conhecia o deserto
de trás para diante e de longe e de perto
o mouro é que sabia que o deserto queima e abrasa
o mouro é que jogava em casa.

E o D. Sebastião levou tantas na pinha
que ao voltar cá encontrou a vizinha
espanhola sentada na cama, deitada no trono
e o país mudado de dono.

E o D. Sebastião acabou na moirama
um bebé chorão sem regaço nem mama
a beber, a contar tim por tim tim
a explicar, a morrer, sim, mas devagar

E apanhou tal dose do tal nevoeiro
que a tuberculose o mandou para o galheiro
fez-se um funeral com princesas e reis
e etcetera e tal, Viva Portugal.


claro que esta letra magnífica é do sérgio godinho, do seu albúm De Pequenino é que se Torce o Destino, de 1972, se não me falha a memória...

é nestas alturas que dou graças a deus por ser portuguesa e poder entender estas letras... imaginem se fosse americana, ou húngara, ou chinesa? que tipo de mulher seria sem o sergio godinho, o fausto, o zeca, o chico buarque, o caetano, e todos os outros...???

porra! não entender nada da desfolhada portuguesa? não conhecer simone de oliveira???

... que pesadelo!

telepatia

quem não se lembra da lara li a cantar telepatia?

Telepatia
Silêncio, Calma
Feitiçaria
Da tua alma

Passo a passo
Sem ter medo
Abrimos, soltámos
O nosso segredo

E a sorrir
Devorámos o mundo
Num abraço
Tão profundo

Telepatia
Sem contratempo
Deixei-te um dia
Num desalento
E eu sonhava
Existia
Pra sempre, pra sempre
Foi pura poesia

Sem pensar
Não vi-te, passavas
Pelo meu corpo
Não ficavas

Telepatia
Minha querida, eu soube sempre
Eu já sabia que te ia conhecer
Fiz tanta força
Para isto acontecer
És tão bonita meu amor
Eu não te queria perder
Já sei, adivinho
O que estás a pensar
Vim do outro lado do mar,
Talvez outro dia volte, não sei
Mas penso em ti, acredita
Adivinhei-te em segundos
Quando jurámos eternidade


E a sorrir
Devorámos o mundo
Num abraço
Tão profundo

Telepatia
Silêncio, Calma
Feitiçaria
Da tua alma


a parte falada é do melhor... nunca ouvi voz menos sedutora.

ao contrário da lara li...

sábado, maio 29, 2004

fama

se soubesse pôr música no blog (continuo sem saber), hoje poria a música do fame, cantada pela irene cara e que nos prendia à televisão nas tardes de fim de semana.




eramos fãs, eu e a mana...

incompreensível

como é que os trovante eram uma banda única, maravilhosa, maviosa, que me arrepia os cabelinhos da nuca. eu adoro trovante....

agora...!

aquele luís represas, com o seu ar macilento e as musiquinhas com o cubano, casado com aquela margarida, ar artificial de flor de plástico enfiada numa jarra barata...

incompreensível: como gosto tanto de trovante e abomino de tal forma o luís represas!

quarta-feira, maio 26, 2004

ridícula

é assim que me sinto: ridícula.

ridícula?!

ridícula não!

estúpida!

eu sou é uma grande estúpida!!!

alguém por favor me dê um estalo?! eu bem que o mereço!

segunda-feira, maio 24, 2004

uma notícia importante

A peste negra pode estar só adormecida

A peste negra, que matou 23 milhões de pessoas na Idade Média, pode estar apenas adormecida e poderá atacar de novo, segundo os investigadores. A explicação foi baseada na teoria de que a peste não foi provocada pela peste bubónica, mas por um outro vírus como se pode ler no novo livro de Christopher Duncan e Susan Scott, da Universidade de Liverpool. Actualmente, a doença afecta entre mil e três mil pessoas por ano. No entanto, detectada prematuramente, tem cura.

Diário de Notícias

sábado, maio 22, 2004

madalena?

he lá, esse cd não é o meu???

mana?!

espero que a capa não esteja partida...

(ninguém pode imaginar o estado em que ela devolve as coisas...

quando devolve.)

sábado, maio 15, 2004

aquele homenzinho de branco...

Vaticano desaconselha casamento de católicas com muçulmanos

O Vaticano desaconselhou hoje os casamentos entre as fiéis católicas e muçulmanos e apelou a estes para terem mais respeito pelos direitos humanos, igualdade entre sexos e democracia. A "Erga Migrantes Caritas Cristi" (A Caridade de Cristo para com os Imigrantes) foi apresentada hoje pelo cardeal japonês Stephen Fumio Hamao.

A carta, com 60 páginas, foi redigida pelo Conselho para a Pastoral dos Emigrados, um dos "ministérios" do Vaticano presidido por Fumio Hamao.

O documento, assinado pelo Papa João Paulo II, salienta que as mulheres são "o membro menos protegido da família muçulmana" e justifica o seu conselho com a "amarga experiência" que as católicas ocidentais tiveram com maridos muçulmanos, especialmente quando casaram fora do mundo islâmico e depois foram para o seu país de origem.

Segundo o documento, quando uma católica e um muçulmano se querem casar, "a experiência ensina que é necessária uma preparação especial, cuidada e profunda" antes de se dar o passo.

O Vaticano apela às mães que batizem os seus filhos e que os criem na religião católica.

A carta apela aos muçulmanos para "terem mais respeito pelas liberdades fundamentais, pelos direitos invioláveis do ser humano, igualdade de sexos e democracia".

O documento, que pretende ser uma resposta da Igreja ao actual movimento migratório, refere-se aos problemas colocados pelas migrações e apela à integração dos imigrantes. "O imigrante deve ser respeitado enquanto tal, com a sua cultura e religião", insiste Fumio Hamao.

"A emigração comporta direitos e deveres. O primeiro dos direitos é o de o imigrante contribuir para o desenvolvimento do seu país de acolhimento".

in Público

sim senhora, está-se mesmo a ver que o nosso amigo voitíla e comparsas aprenderam bem os ensinamentos de cristo que, a esta altura, deve estar a apaziguar o pai - "perdoai-lhes, eles não sabem o que dizem" - , mas cheio de vontade de dar um valente sanafão àquele homenzinho de branco.

eu estou. dava-lhe logo um piparote no nariz e apresentava-o à rita q. que, com o seu sadio italiano, lhe explicaria em três tempos (e de dedo em riste) duas ou três coisas sobre generalização abusiva dos termos. engolia logo a expressão " amarga experiência", metia o rabinho entre as pernas e passava a limitar-se aos passeios pelo vaticano no seu papamóvel... e nunca mais abriria a boca para dizer este tipo de disparates, e as expressões tolerância e reconhecimento continuariam a fazer sentido na religião católica.

o meu blog-sonho de consumo

o que é que se passa?? toda a gente mete música nos blogs? há um blog... (deixem-me lá qual é...) que começa logo a tocar música quando se abre o dito... aqui, vejam lá! não... ouçam lá!

como é que isto se faz?

imaginem-me se eu soubesse disto hoje? era já aqui o "navegar, navegar" do meu precioso fausto...

"ó minha cana verde
mergulhar no teu corpo
entre quatro paredes
"

sexta-feira, maio 14, 2004

fausto

este também deve ter vendido a alma ao diabo... para mim, é o melhor músico do mundo. não tenho dúvidas abslutamente nenhumas disso.

bendito cantor maldito.

terça-feira, maio 11, 2004

confesso.

gosto de ler os blogs dos outros.

mas não tenho a mínima pachorra para comentar os blogs dos outros no meu blog.

tenho a sensação que muitos bloguistas escrevem mais de 70% dos seus textos sobre os blogs dos outros...

bleagh!

o rio de janeiro continua lindo...

Militares vão garantir segurança dos cariocas

Nos próximos dias, o Rio de Janeiro ficará com um ar mais bélico, algo parecido com Bogotá (Colômbia) ou Beirute (Líbano). Para conter a violência dos bandidos e traficantes de drogas, o Exército irá patrulhar as vias mais importantes da cidade. Serão utilizados tanques na «Linha Vermelha», que liga o Aeroporto Internacional ao centro, e na «Linha Amarela», que dá acesso a subúrbios.

Esta acção prova a insuficiência da polícia local para conter os actos de banditismo na cidade, como a disputa entre bandos durante a última Semana Santa, que fez 12 mortos, dois deles polícias.

Os militares - por falta de experiência em áreas urbanas - não deverão entrar nas favelas, mas deverão cercá-las de forma a impedir o tráfico de droga e a violência dos bandidos. Estes têm utilizado, nos últimos tempos, o sistema de organizar um grupo de veículos - «bonde do mal» - para ataques ou roubos. Com a presença do Exército, isso deverá ser interrompido.

De início, deverão ser utilizados 2000 homens da brigada de para-quedistas e, possivelmente, outros 2000 transferidos do interior do país, que estão a ser treinados para acções urbanas.

Segundo a Constituição, não cabe às Forças Armadas velar pela segurança interna do país, mas cada dia torna-se mais óbvio que terão de ser elas a agir, em benefício da segurança nacional.

Resultados de sondagens revelam que 62 por cento dos habitantes do Rio aprovam a participação dos militares no patrulhamento das ruas. Por outro lado, não há dúvidas de que o exército tem sido ineficaz na contenção da entrada de armas e drogas no País. O Brasil produz maconha, mas a cocaína vem de países como Bolívia, Paraguai e Colômbia e entra pelas fronteiras terrestres, insuficientemente patrulhadas pelo exército, que também não consegue impedir a entrada de armas contrabandeadas.

Peritos têm procurado descobrir as causas para a crescente violência das cidades brasileiras, em especial no Rio. Segundo dados recolhidos, por falta dum programa habitacional consistente, só resta aos pobres morar em favelas. É assustador para os brasileiros saberem que, de 1991 a 2000, a população nacional aumentou à média anual de 1,6 por cento e o número de habitantes das favelas subiu 4,32 por cento ao ano, o que prova que a população das favelas está a aumentar sem controlo por falta de recursos e de casas decentes para os pobres.

A economista Tânia Araújo considera que a situação decorre do facto de os governos terem dado prioridade ao pagamento das dívidas interna e externa do país e, em consequência, escassearem os recursos para o auxílio à pobreza, a criação de empregos, saneamento básico, habitação e saúde.

Diário de Notícias

as grandes novidades noticiadas pelo jornal público

caros amigos e amigas (sou, obviamente, uma mulher politicamente correcto por isso nunca esqueço as questões de género), surpreendam-se com as situações nunca imaginadas neste país e neste mundo!

Centros de Saúde da Região de Lisboa Funcionam em Más Condições

Cursos Tecnológicos e Profissionais Têm Maior Percentagem de Empregabilidade

Dinheiro Gasto em Três Dias com Armamento Chegava para Educar Crianças-trabalhadoras

PCP Contra Privatização da Galp

Maioria Acredita Que o Euro Não Compensa

sim senhora...! estou pasma. nunca pensei que estas coisas fossem possíveis.

nunca fui ao centro de saúde de sacavém, alojado num prédio habitacional, com péssimos acessos, onde os velhos têm de subir dois andares para levar uma injecção;

é uma evidência que o desemprego nunca atinge os licenciados e afins;

trabalho infantil? orçamentos brutais para armamento? que disparate!;

o pcp não é um partido que promove o mercado livre e o capitalismo selvagem?;

o euro vai ser um evento em grande: muito turismo, adeptos cheios de vontade de gastar dinheiro e o país cheio de estádios que poderão ser rentabilizados pelo estado.

sábado, maio 08, 2004

mila

sms recebida às 11.37 da manhã de sábado, enquanto a mila entrava por terras de espanha, em direcção a madrid.

"bom teria sido ontem descer à rua em vez de subirmos sozinhos a grande rampa, mas hoje na manhã ainda levamos o cravo na boca. bjs às manas + bonitas do mundo"

terça-feira, maio 04, 2004

...e nada reter

às vezes gostava de saber o que me passa pela cabeça para começar a cozinhar perto das 11 da noite. o goulash, especialidade do manel, continuar a borbulhar na panela, e espalha um odor apimentado, delicioso que se mistura com o cheiro agudo da tinta.

ainda não jantei. tenho de continuar o estudo. estou cheia de saudades do manel. estraguei o meu mini-aspirador. rebocaram-me o carro do parque de estacionamento do meu emprego quinta feira passada.

que merda...

domingo, maio 02, 2004

petisco

ando cá com umas ganas de comer caracóis...!

quinta-feira, abril 29, 2004

vida paralela

fez-me olhar noutra direcção. saí do brasil com a mala repleta de cd's. ouvi tudo, comprei o que pude, mas a grande descoberta foi legião urbana. rock brasileiro, cantado por um voz profunda, colocada mas doce. o renato russo deixa-me em puro extâse, esse homem feio, de brasília, da minha cidade de adopção, do sítio onde me senti mais livre e mais só. o período mais feliz da minha vida, embora coxo pela falta dos meus irmãos. em brasília sentia-me outra. pela primeira senti-me uma mulher, a sério, com M. bonita, leve, despreocupada, inteligente, competente, admirada, amada. incondicionalmente amada. a roçar a idolatria. em brasília apaixonei-me de forma descontrolada, acesa, adolescente. quis casar. regressei com promessas de união eterna. na despedida pensei que ia morrer, morrer de amor. assustei todos os meus amigos: uns olhavam-me com com censura, perplexidade, gozo, é tonta, coitada, achas mesmo que ela vai casar com o tipo? outros tentavam chamar-me à razão com falinhas mansas e discursos sérios, mas vais-te mesmo casar? mas tens a certeza? conhecem-se há tão pouco tempo... pensa bem nisso!

não casei. gastei uma pipa de massa em telefonemas e dois meses depois já andava a suspirar por outro. desapaixonei-me com um sonho e um telefonema. alguma coisa caiu, assim, repentinamente, sem eu dar por nada. o grande amor passou. na verdade... nunca chegou.

mas aquele rapaz triste, de olhos doces, barba rala, que tinha estudado história, órfão de pais e de amor, vem-me sempre à cabeça quando ouço legião urbana. e penso em brasília. e acho que fui estúpida. e que nunca devia ter voltado. e que aqui me vou perdendo aos poucos, perdendo de uma vida possível, mais apetecível mas mais amarga.

por isso, quando ponho os legião urbana a tocar, entro num estado de euforia interior que ninguém percebe, que não deixo transparecer, numa dor que me dá um prazer mágico, quase embriaguez. o peito parece insuflar-se como um balão e tudo se torna mais intenso: o cheiro, as cores, as pessoas, a minha vida paralela, que parece ter continuado no planalto central, no distrito federal, no plano piloto. e que me assombra... às vezes.


Índios
Renato Russo

Quem me dera, ao menos uma vez
Ter de volta todo ouro que entreguei
A quem conseguiu me convencer
Que era prova de amizade
Se alguém levasse embora até o que eu não tinha

Quem me dera, ao menos uma vez
Esquecer que acreditei que era por brincadeira
Que se cortava sempre um pano-de-chão
De linho nobre e pura seda

Quem me dera, ao menos uma vez
Explicar o que ninguém consegue entender
Que o que aconteceu ainda está por vir
E o futuro não é mais como era antigamente

Quem me dera, ao menos uma vez
Provar que quem tem mais do que precisa ter
Quase sempre se convence que não tem o bastante
E fala demais por não ter nada a dizer

Quem me dera, ao menos uma vez
Que o mais simples fosse visto como o mais importante
Mas nos deram espelhos
E vimos um mundo doente

Quem me dera, ao menos uma vez
Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
E esse mesmo Deus foi morto por vocês
É só maldade então, deixar um Deus tão triste

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda - assim pude trazer você de volta pra mim
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim
E é só você que tem a cura para o meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi

Quem me dera, ao menos uma vez
Acreditar por um instante em tudo que existe
E acreditar que o mundo é perfeito
E que todas as pessoas são felizes

Quem me dera, ao menos uma vez
Fazer com que o mundo saiba que seu nome
Está em tudo e mesmo assim
Ninguém lhe diz ao menos obrigado

Quem me dera, ao menos uma vez
Como a mais bela tribo, dos mais belos índios
Não ser atacado por ser inocente

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda - assim pude trazer você de volta pra mim
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim
E é só você que tem a cura para o meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi

Nos deram espelhos e vimos um mundo doente
Tentei chorar e não consegui

"Dois"
(1986)

segunda-feira, abril 26, 2004

moscovo

os meus pais souberam do 25 abril numa festa em moçambique. conta o meu irmão que, de repente, a festa se tornou silenciosa e sorumbática. o meu pai ficou sério. a minha mãe chorava sentada a uma mesa, preocupada com a minha tia, sem perceber o verdadeiro significado daquele golpe militar, que em poucas horas derrubara um regime de décadas.

por essa altura, a minha tia trabalhava em s. josé, enfermeira bonita e competente, um pouco triste por uma história de desamor e engano. nesse dia cumpriu o horário até ao fim, e depois entregou-se às ruas de lisboa em festa, vermelhas e brancas, como os cravos que distribuiam nas ruas. a minha tia comunista, que em 1978 foi à união soviética em viagem e de lá trouxe as imagens da neve e do comunismo que marcou a nossa infância. as tardes de fim de semana eram passadas em cima da cama dela, a olhar as fotografias de uma moscovo branca e panfletária, cheia de manisfestações de verdadeiros cidadãos soviéticos crentes no sistema. a neve branca, que eu e a minha irmã nunca pisáramos, tornava o vermelho das bandeiras mais vivo e as caras do lenine e do estaline mais impressionantes. os postais dos palácios de leningrado e os slides das imponentes estações de metro moscovitas preencheram o nosso imaginário infantil, lado a lado com as desventuras da heidi, a vida despreocupada do franjinhas e as invenções do professor baltasar. e a minha tia ali, no meio do branco e do vermelho, de lenço vermelho com bolas pretas, ao lado da conceição anselmo, a sorrir para a fotografia, também ela crente no comunismo, feliz, bonita, competente, magrinha, mas sempre marcada por uma história de desamor e engano.

domingo, abril 25, 2004

0 DIA INCOMUM DE UM EXILADO
VIVENDO ENTÃO EM VANCOUVER

Sérgio Godinho

Era muito longe, ou seja
no Pacífico
Notícias de jornal, confusas:
tanques ocupam a praça central
de Lisboa
Digo-me: mal eles sabem que se chama
Rossio mas digo-me também: se é a revolução
daquele do monóculo
pouco tenho a esperar
Depois espanto-me: como é possível
que libertem assim
sem mais nem menos
os presos políticos
e prometam a autodeterminação
de colónias economicamente tão preciosas?
0 povo saiu à rua e foi isso
que mudou tudo, explicam-me então
pelo telefone.

No dia em que abalei
para aqui ficar
deixei sem remorsos:
a minha horta
cujos legumes tantas vezes protegi
um trabalho que tanto suspeitava amar
e os amigos que, querendo ser generosos,
me disseram:

«Vai, vais ver que não te arrependes»

Esquece-se muita coisa...
a força de ver caras novas
não sei se me lembro das antigas
embora as veja tão bonitas
e disponíveis
na memória
e por vezes em fotografia.

(Inédito)

PoemAbril
Antologia de autores organizada por
Carlos Loures e Manuel Simões
Fora do Texto - Cooperativa Editorial de Coimbra, CRL.
Coimbra, 1994



25 de Abril - 30 anos

quinta-feira, abril 22, 2004

de mãos e pés atados

é assim que me sinto.

impotente. de mãos, pés atados. a garganta seca de angústia. sem palavras. pequena.

não, hoje não sou feliz...

terça-feira, abril 20, 2004

o melhor concerto da minha vida

o melhor concerto da minha vida, foi o de sexta-feira passada, dos tindersticks. porquê? porque fui com os meus irmãos e com o manel, as três pessoas que mais gosto no mundo (sem contar com os meus sobrinhos, claro!). é parolo mas é verdade! para mim, há momentos que valem muito mais do que o gajo que está a contorcer-se em palco.

entre o meu irmão de olhos fechados, a bater palmas logo no final das músicas, a minha irmã ao longe, sentada como se estivesse numa chaise longue de um paquete americano e o manel a balançar-se de mãozinhas nos bolsos, vivi dos momentos mais felizes da minha vida. é parolo, eu sei... mas é verdade!

sou viciada nestas três pessoas: no beto, na mana e no manel. e sou feliz assim... mais feliz que a maioria das pessoas que me lêem.

segunda-feira, abril 12, 2004

tindersticks

Buried Bones

I could take all the craziness out of you
That's what I loved you for
Take away all the oranges, greens and blues
That's what I loved you for
Take a look at me
You think it really could be that easy?
I mean, take a look at me
You think it really could be that easy for you?
I know about guys, I know where they live
And you're just the same
The ones that matter fight against themselves
But it's so hard to change
Hey, I could love you
Take all that love away from you
Hey, I could love you
Put you in this box I've made for two
So you could take all this craziness out of me
That's what you love me for
Well, I don't mean to laugh
But if you know all this
You must be halfway there
Well, like that dress tonight, you won't know as it falls from you
Turn around and it's winter, darling
Look in the mirror and it won't be you
So you're an old, old dog
You've been around the block
So many times
And it's the same old turns
Same old feelings straight down the line
Yeah, I can love you
Grab that leash and drag you to a place you'd never know
I know where my bones are buried
May take me a while, but I'd find my way home

"Curtains"
(1997)

não. não consigo decidir qual é a minha música favorita dos tindersticks. pode ser esta, a anterior, a próxima, todas as que este homem canta...




cumprido

retirei aqui do lado o link da rapariga que também bloga. espero que esteja satisfeita...

quarta-feira, abril 07, 2004

casais



frida e diego                              ana e reinaldo                           susana e manel

segunda-feira, abril 05, 2004

hoje, em especial, hoje...

queria ser mais escura. que a minha pele adoptasse um tom mais carregado, castanho. que o meu cabelo se alisasse e tomasse um tom negro. que os meus olhos se abrissem, que as pestanas alongassem. que a carne por debaixo das minhas unhas se colorisse de laranja.

hoje, em especial hoje (mais que os outros dias), queria ser mais escura, mais indiana, mais asiática, mais africana - escura, escura, escura. preta. como o meu pai.

terça-feira, março 30, 2004

mandamentos

Choose life.

Choose a job.

Choose a career.

Choose a family.

Choose a fucking big television.

Choose washing machines, cars, compact disc players, and electrical tin openers.

Choose good health, low cholesterol and dental insurance.

Choose fixed-interest mortgage repayments.

Choose a starter home.

Choose your friends.

Choose leisure wear and matching luggage.

Choose a three piece suite on hire purchase in a range of fucking fabrics.

Choose DIY and wondering who you are on a Sunday morning.

Choose sitting on that couch watching mind-numbing sprit-crushing game shows, stuffing fucking junk food into your mouth.

Choose rotting away at the end of it all, pishing you last in a miserable home, nothing more than an embarrassment to the selfish, fucked-up brats you have spawned to replace yourself.

Choose your future.

Choose life.

...

o sapo II

tenho a comunicar que também acho o sapo adsl uma grande merda.

segunda-feira, março 29, 2004

o sapo...

...é uma grande merda!

exacto... sim! esse mesmo: o sapo!

aquele portal de gente tão incompetente e inculta, que até hoje ainda não perceberam que o sapo é, na realidade, uma rã!

então no anúncio de televisão é vergonhosamente óbvio.

principalmente má aquela parte das homepages... uma verdadeira porcaria...

ora experimentem lá ir a http://ganeshgordo.no.sapo.pt.

(se conseguirem, fico verde de vergonha!)


domingo, março 28, 2004

domingos

domingo. início da noite.

estou lenta. apetece-me fumar um cigarro mas temo pelas dores de garganta. o nariz pinga e sinto este escritório gelado. a preguiça é tanta que me custa pôr os acentos nas respectivas letras. escrevo com uma mão, enquanto a outra serve de apoio ao queixo.

domingo... início de noite...

devia haver uma lei que proibisse os fins de tarde de domingo: são deprimentes.

sexta-feira, março 19, 2004

paixão literária

Bolero do coronel sensível que fez amor em Monsanto
Vitorino

Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada
Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome
Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão
Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer gemeste,
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos
Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete
Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto
A suor, a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada

Vitorino e António Lobo Antunes
(1992)

confesso: ando perdida de amores pelo lobo antunes.

estou-me a borrifar que o gajo seja arrogante, convencido, que despreze portugal, que publique os seus livros primeiro no estrangeiro e só depois cá, que escreva numa língua que não o português, que seja louco, pisocótico, estúpido.

paciência. não há nada a fazer! estou enamorada e pronto!

quarta-feira, março 17, 2004

outra grande dúvida...

... porque é que os homens coçam os tomates em público? volta-meia-volta lá estão eles com o mindinho ou o indicador...

e outra! e porque é que escarram para o chão, ali no meio da rua? com tanto ruído, que se pode ouvir um tipo a escarrar à distância de meia légua?


terça-feira, março 16, 2004



Balada para los poetas andaluces de hoy
Autor: Rafael Alberti

¿Qué cantan los poetas andaluces de ahora?
¿Qué miran los poetas andaluces de ahora?
¿Qué sienten los poetas andaluces de ahora?

Cantan con voz de hombre, ¿pero donde están los hombres?
con ojos de hombre miran, ¿pero donde los hombres?
con pecho de hombre sienten, ¿pero donde los hombres?

Cantan, y cuando cantan parece que están solos.
Miran, y cuando miran parece que están solos.
Sienten, y cuando sienten parecen que están solos.

¿Es que ya Andalucia se ha quedado sin nadie?
¿Es que acaso en los montes andaluces no hay nadie?
¿Qué en los mares y campos andaluces no hay nadie?

¿No habrá ya quien responda a la voz del poeta?
¿Quién mire al corazón sin muros del poeta?
¿Tantas cosas han muerto que no hay más que el poeta?

Cantad alto. Oireis que oyen otros oidos.
Mirad alto. Veréis que miran otros ojos.
Latid alto. Sabreis que palpita otra sangre.

No es más hondo el poeta en su oscuro subsuelo.
encerrado. su canto asciende a más profundo
cuando, abierto en el aire, ya es de todos los hombres.

***************************************************
esta é das tais que me arrepiam os cabelinhos da nuca.

segunda-feira, março 15, 2004

tricas, dotícia e rolmo

sempre gostava de saber onde é que ela vai arranjar estes nomes deliciosos??

se eu fosse católica, pedia-lhe para ser madrinha dos meus filhos: haveria de lhes dar nomes únicos e fantásticos e contar-lhes as suas maravilhosas histórias de encantar...

bin laden visto no martim moniz

pelas notícias de hoje, parece que o país está ansioso por ser o próximo alvo de atentados bombistas...! ele é ameaças terroristas para aqui, ele é mensagens com avisos para ali... o primeiro ministro fala, o presidente declara, os dois ministros sem pasta alertam, a oposição opina e a imprensa alarma!

sim senhora!!

quarta-feira, março 10, 2004

ganesh

fumando

nunca deveria ter virado à direita no semáforo, em direcção à bomba de gasolina.

nunca deveria ter estacionado o carro.

nunca deveria ter saído do carro com 2,05€ no bolso e pedido um maço de português azul.

nunca deveria ter comprado tabaco depois de dois a tentar deixar de fumar.

fumando, escrevo agora estas palavras...

que merda! tenho de deixar de fumar... isto é mesmo um vício....!

quarta-feira, março 03, 2004

quando ela tinha nove anos

sempre que lhe falo de música portuguesa ou música brasileira, faz uma ar de indiferença. não comenta. não gosto, diz. há uns tempos atrás prometi-lhe gravar um cd com as minhas músicas brasileiras predilectas. cobrou-me a promessa, infinitamente adiada umas quantas vezes... agora que tenho gravador de cds, tenho de começar a fazer a selecção. vai demorar. tenho de a deixar deliciada com a música brasileira.

ate porque eu fazia um ar enjoado e enfadado sempre que a ouvia falar da stevie nicks. que horror, não gosto nada dessa tipa, dizia-lhe eu, principalmente daquela úsica, o i can't wait, que sempre teve o condão de me irritar, desde miudinha. hoje gosto de stevie nicks. dei por mim aos 21 anos sentada num bar em nova york a tentar ver e ouvir a espantosa reunião dos fleetwood mac no the dance, depois do empregado ter exigido ver os nossos passaportes antes de nos servir uma simples cerveja. hoje gosto muito de stevie e muitas vezes ouço as suas músicas preferidas, que ela me gravou em cd logo que pode.

por isso o meu espanto quando, na sexta passada, no meio de uma acesa discussão ao som do álbum roberto carlos, quando se indignava com o facto de eu e clara gostarmos das baleias, apoiando as frases de escárnio da rita, soltou um berrinho, parou e emocionou-se exclamando eu adoro esta música!!!! com um copo de vinho na mão e sorriso pateta de felicidade cantava baixinho a letra daquela música até há poucos minutos tão brega do roberto carlos. cantava concentrada, deslumbrada por ainda se recordar da letra toda, a letra da cama e mesa do roberto carlos. cantava concentrada enquanto o resto da casa a olhava maravilhada (eu) ou rebolava a rir no meio do chão (rita).

vera, a terceira estarola, descobria que afinal a música não é só anglo-saxónica e moderna e que, algures no brasil, um velho ídolo católico ferveroso a fazia regressar aos seus nove anos, no tempo em que ouvia os singles dos pais vezes e vezes sem conta.


Cama e mesa

Eu quero ser sua canção, eu quero ser seu tom
Me esfregar na sua boca, ser o seu batom
O sabonete que te alisa embaixo do chuveiro
A toalha que desliza no seu corpo inteiro
Eu quero ser seu travesseiro e ter a noite inteira
Pra te beijar durante o tempo que você dormir
Eu quero ser o sol que entra no seu quarto adentro
Te acordar devagarinho, te fazer sorrir

Quero estar na maciez do toque dos seus dedos
E entrar na intimidade desses seus segredos
Quero ser a coisa boa, liberada ou proibida
Tudo em sua vida

Eu quero que você me dá o que você quiser
Quero te dar tudo que um homem dá pra uma mulher
E além de todo esse carinho que você me faz
Fico imaginando coisas, quero sempre mais

Você é o doce que eu mais gosto
Meu café completo, a bebida preferida e o prato predileto
Eu como e bebo do melhor e não tenho hora certa
De manhã, de tarde, à noite, não faço dieta

Esse amor que alimenta minha fantasia
É meu sonho, minha festa, é minha alegria
A comida mais gostosa, o perfume e a bebida
Tudo em minha vida

Todo homem que sabe o que quer
Sabe dar e querer da mulher
O melhor e fazer desse amor
O que come, o que bebe, o que dá e recebe

Mas o homem que sabe o que quer
E se apaixona por uma mulher
Ele faz desse amor sua vida
A comida, a bebida, na justa medida

O homem que sabe o que quer
Sabe dar e querer da mulher
O melhor e fazer desse amor
O que come, o que bebe, o que dá e recebe

Mas o homem que sabe o que quer
Sabe dar e querer da mulher
O melhor e fazer desse amor
O que come, o que bebe, o que dá e recebe

Mas o homem que sabe o que quer
E se apaixona por uma mulher
Ele faz desse amor sua vida
A comida, a bebida, na justa medida?


Roberto Carlos - Erasmo Carlos
(1981)

terça-feira, março 02, 2004

não pode ser...

proibo-me de ler os textos da minha irmã no emprego. corro o sério risco de desatar a chorar ao pé do gordo jovem administrativo que passa horas a tirar fotocópias, mesmo aqui ao meu lado. ou da rapariga grávida de quatro meses que segura a barriga num gesto de ternura...

não pode ser...

sexta-feira, fevereiro 27, 2004

não queria estar aqui

no dia em que termino mais um trabalho sobre goa, recebo a notícia da morte do meu tio xavier, marido da minha tia amália, irmã mais nova do meu pai. aqui sentada em frente a este ecrã, olho a fotografia plastica que decora uma das paredes deste escritório e vejo o meu tio xavier sentado na varanda tipicamente indo-portuguesa que fronteia a nossa casa em goa. soori. ao seu lado senta-se o meu tio filipinho, também já morto, irmão do meu pai, um homem afável, que tinha a voz e as mãos do meu pai. do outro lado, sorri a minha tia amália, com o seu sari rosa e azul escuro e o seu cabelo preto apanhado.

hoje sinto a falta da minha presença naquela casa em pondá, onde a minha tia chora a morte súbita do marido e os meus primos vivem o seu primeiro dia sem pai.

sábado, fevereiro 21, 2004

hermana

a minha irmã acabou de sair de minha casa, levando uma matraquilha chorosa que queria ir ver mais "pathinhos": o passeio à quinta pedagógica, onde os patos tentavam roubar as suas bolachinhas, foi frustrado pela chuva repentina.

saiu de minha casa com a matraquilha e com uma grande mala preta, feia, de verniz, muito, muito feia (onde é que ela terá comprado aquilo?!) repleta de cd's. alguns meus, claro... fico sempre com o coração nas mãos quando lhe empresto alguma coisa: em primeiro lugar, porque sou sunica (é assim que se escreve?), e segundo, porque a mana tem o condão de partir, perder ou estragar tudo o que lhe empresto. lá foi ela com o chico césar, com os capital inicial e o zeca baleiro. também levou um sergio godinho e um tito paris, que lhe tinha surripiado há muito tempo. enquanto a via, com um ar guloso, enfiar os cds na mala feia (inimaginavelmente feia...), disse-lhe com um ar sério por fora, mas a rir-me por dentro: então os hermanos ficam?! abriu os olhos, balbuciou qualquer coisa com um ar indignado, disse eu ouço isso sempre...! não, não! não, não! se quiseres eu ofereço-te. olhei a matraquilha que se sentava nas pernas da mãe e cantava o fim das palavras de cada verso da música preferida daquele álbum...

estou lixada se não gostar dos los hermanos. a hermana vai-me perseguir a vida inteira, lançando olhares de desprezo sempre que lhe aparecer com outra voz, outro som, outro ritmo.

terça-feira, fevereiro 17, 2004

segunda-feira, fevereiro 16, 2004

cantada pela elis regina, esta é a única música que me faz chorar

No dia em que eu vim-me embora
Caetano Veloso

No dia em que eu vim-me embora
Minha mãe chorava em ai
Minha irmã chorava em ui
E eu nem olhava pra trás
No dia que eu vim-me embora
Não teve nada de mais

Mala de couro forrada com pano forte brim cáqui
Minha vó já quase morta
Minha mãe até a porta
Minha irmã até a rua
E até o porto meu pai
O qual não disse palavra durante todo o caminho

E quando eu me vi sozinho
Vi que não entendia nada
Nem de pro que eu ia indo
Nem dos sonhos que eu sonhava
Senti apenas que a mala de couro que eu carregava
Embora estando forrada
Fedia, cheirava mal

Afora isto ia indo, atravessando, seguindo
Nem chorando nem sorrindo
Sozinho pra Capital
Nem chorando nem sorrindo
Sozinho pra Capital
Sozinho pra Capital
Sozinho pra Capital
Sozinho pra Capital…

Caetano Veloso & Gilberto Gil
(1968)

no dia em que parti para o brasil, pensava em não voltar. deixava para trás a minha família. vejo ainda o meu pai a arrastar a minha mãe pelo aeroporto fora, a minha mãe, que me olhava, virando a cabeça para trás, com um sorriso forte, a segundos de se transformar em choro. regressei a tempo de assistir ao definhar da minha avó, a tempo de presenciar o nascimento do diogo, o filho mais velho do meu irmão. não chorei quando me vim embora de portugal. mas choro sempre que ouço esta música, cantada pela elis regina. ela canta-a no feminino e, nesse momento, eu sou esta mulher com a mala de couro com pano forte brim cáqui. e volto a ser aquela rapariga que olhava a mãe arrastada pelo pai que não queria olhar para trás.

só nos faltava mais esta: o cretino a tecer considerações sobre o idiota!

Jorge Coelho diz que Ferro Rodrigues merece ser primeiro-ministro

domingo, fevereiro 15, 2004

quinta-feira, fevereiro 12, 2004

beto

sabe apenas que a sua mãe se chama natália. que era ainda uma miúda quando o teve. que o abandonou nos braços do pai. que o voltou a ter por momentos, fugida mas rapidamente apanhada. imagino o pai a mandar parar a camioneta onde o menino dormia ao colo da mãe que, pela primeira vez em dias, o acarinhava e apertava contra si. imagino sempre uma cena de filme. o homem a mandar para a camioneta, a mulher desesperada a olhar para ele, o calor abafado que os fazia suar, o homem a tirar o menino à mãe, desajeitado, apressado, a mãe a chorar, o menino a chorar, e a câmera lentamente a acompanhar o homem, que sai para o meio de uma estrada de terra batida, perdida no meio de moçambique.

esse homem é meu pai, esse menino meu irmão. essa mulher não a conheço. nem quero. por momentos, há quase quarenta anos, roubava-me o meu irmão, muito antes de nascer.

quarta-feira, fevereiro 11, 2004

escreve

"temos uma filha que escreve". é assim que edith frank, a mãe de anne frank, diz a miep aquilo que se tornou público ao mundo após a publicação do diário.

ultimamente, sempre que leio o blog da minha irmã, vejo-me na pele daquela mãe, olhando a amiga, dizendo simplesmente: "tenho uma irmã que escreve".

terça-feira, fevereiro 10, 2004

depois...

depois de estacionar o carro do meu pai numa rua íngreme perto da calçada do combro...

depois de me decidir a descer a rua, em vez de a subir, por preguiça, por não querer passar pelos adolescentes sentados nas escadas da igreja...

depois de ouvir vozes altas, vozes grossas que enchiam a rua estreita que descia...

depois de passar pela tasca e espreitar de relance os homens, três homens, que falavam alto e grosso...

depois de reparar no bêbado empoleirado numa estrutura de ferro que impede os peões de se precipitarem para o meio da estrada...

depois de pensar "que merda, o bêbado ainda se vai meter comigo!"

depois de resolver "tenho de passar discretamente pelo bêbado, não se vá ele meter comigo..."

depois de de chegar ao final da rua, olhar para o bêbado e virar à esquerda, na esquina...

depois...

depois estatelei-me ao comprido entre o passeio e estrada, caí com o corpo todo no meio do alcatrão. a asa da mala prendeu-se no pino verde que resguarda o passeio dos carros e, no preciso momento em que ia virar à esquerda, senti-me em desequilíbrio. alguma coisa impedia-me de andar. senti o joelho embater fortemente no chão, dei uma volta de 90 garus sobre mim própria, larguei a mala, tentei aparar a queda com as mãos. o queixo e o nariz rasparam o alcatrão e só parei quando minha testa embateu no pneu de uma vespa verde que aguardava pacientemente o retorno do seu dono.

depois...

depois de levantar-me atordoada...

depois do bêbado atravessar a estrada em meu auxílio, gritando "então?! então?! sozinha???".

depois de ouvir vozes e ver uma mulher gorda a olhar para mim com um ar perplexo...

depois de agarrar a mala que, ironicamente, fazia de argola em redor do pino verde...

depois de me sentir idiota, ridícula e pequeno-bruguesa, num misto de riso e de susto...

depois de subir no escuro, insegura, dois lances de escadas íngremes...

depois disto tudo... a ginoca deu-me um anjo da guarda, comprado por ela e nathalie em luanda.

um anjinho que está pendurado na porta da varanda e que espero me proteja desta e de todas as outras quedas.

nat, gi: obrigada.

quinta-feira, fevereiro 05, 2004

sempre a primeira vez

no final de fevereiro o sergio godinho dá mais um concerto. para mim e para a minha irmã, um concerto do sérgio godinho é sempre como se fosse a primeira vez. os berrinhos, a excitação, a expectativa...

não será a primeira vez para nós , mas sim para o matraquilho mais velho. orgulhosas, ansiosas, a mãe e a tia entrarão pelo coliseu adentro, com o matraquilho pelas mãos. pela primeira vez ele vai assistir à tia histérica aos pulinhos na cadeira, ao soltar os seus estridentes "iiihuuuuuuu!" e mãe envergonhada, a dizer entre-dentes "eu não te conheço!".

como eu imaginava que seria o amor II

2º ANDAR, DIREITO

Ele vinte anos, e ela dezoito
e há cinco dias sem trocarem palavra
lembrando as zangas que um só beijo curava
e esta história começa no instante
em que o homem empurra a porta pesada
e entra no quarto onde a mulher está deitada
a dormir de um sono ligeiro

E no quarto, às cegas,
o escuro abraça-o como que a um companheiro
que se conhece pelo tocar e pelo o cheiro
e é o ruído que o chão faz que lhe traz
o gosto ao quarto depois de uma ruptura
faz-lhe sentir que entre os dois algo ainda dura
dos dias em que um beijo bastava

E agora, da cama
vem uma voz que diz sussurando: És tu?
e a luz acende-se sobre um braço nu
e a mulher pergunta: A que vens agora?
é que não sei se reparaste na hora
deixa dormir quem quer dormir, vai-te embora
amanhã tenho de ir trabalhar

Não fales, que o bébé ainda acorda
não grites, que o vizinho ainda acorda
e não me olhes, que o amor ainda acorda
deixa-o dormir, o nosso amor, um bocadinho mais
deixa-o dormir, que viveu dias tão brutais

E o homem de pé
parece um rapazinho a ver se compreende
e grita e diz que ele também não se vende
que quer a paz mas de outra maneira
e nem que essa noite fosse a derradeira
veio afirmar quer ela queira ou não queira
que os dois ainda têm muito que aprender
Se temos…! diz ela
mas o problema não é só de aprender
é saber a partir daí que fazer
e o homem diz: Que queres que eu responda?
Não estamos no mesmo comprimento de onda…
Tu a mandares-me esse sorriso à Gioconda
e eu com ar de filme americano

Somos tão novos, diz o homem
e agora é a vez de a mulher se impacientar
essa frase já começa a tresandar
é que não é só uma questão de identidade
é eu ou tu, seja quem for, ter vontade
de mudar ou deixar mudar

Não fales,…

E assim se ouviu
pela noite fora os dois amantes falar
e o que não vi só tive que imaginar
é preciso explicar que sou eu o vizinho
e à noite vivo neste quarto sozinho
corpo cansado e cabeça em desalinho
e o prédio inteiro nos meus ouvidos

Veio a manhã e diziam
telefona ao teu patrão, diz que hoje não vais
que viveste uns dias assim tão brutais
e que precisas de convalescença
sei lá, inventa qualquer coisa, uma doença
mete um atestado ou pede licença
sem prazo nem vencimento, se preciso for
(Espero que não seja preciso, porque não
sei como é que eles vão viver sem os dois salários…)
Vá fala, que o bébé está acordado
o vizinho deve estar já acordado
e o amor, pronto, também está acordado
mas tem cuidado, trata-o bem
muito bem, de mansinho
que ainda agora vai pisar outro caminho.

Sérgio Godinho
Pano Cru
(1978)
*******************************************

como o meu amor é.
(óbvio que metaforicamente!)

segunda-feira, fevereiro 02, 2004

______________________________

é dolorosamente ténue a linha que separa o ódio do amor.

domingo, fevereiro 01, 2004

como eu imaginava que seria o amor

Que maravilha

Lá fora está chovendo.
Mas assim mesmo
Eu vou correndo
Só pra ver o meu amor.

Ela vem toda de branco.
Toda molhada e despenteada,
Que maravilha,
Que coisa linda
Que é o meu amor.

Por entre bancários, automóveis,
Ruas e avenidas
Milhões de buzinas
Tocando sem cessar.

Ela vem chegando de branco,
Meiga, linda e muito tímida.
Com a chuva molhando seu corpo
Que eu vou abraçar.

E a gente no meio da rua,
Do mundo, no meio da chuva,
A girar,
Que maravilha,
Que maravilha,
Que maravilha.

Toquinho - Jorge Benjor

sexta-feira, janeiro 30, 2004

a mala do sport billy



a minha mala parece-se cada vez mais com o saco do sport billy. mas, em vez de bolas de futebol, raquetes de ténis e sticks de hoquéi, encontra-se repleta de anti-inflamatórios, pilhas usadas, talões de multibanco, meios pacotes de lenços de papel, pensos higiénicos, vários batons que me esqueço de usar, frascos de soro fisiológico...

e, ao contrário do nosso herói, tenho de mergulhar a minha mão várias vezes até conseguir encontrar as coisas mais simples como a carteira, o discman ou a agenda.

se o sport billy fosse uma gaja, há muito que tinha sido papado pela pérfida vanda!

quarta-feira, janeiro 28, 2004

luso-tropifamilia

pertenço a uma família miscigenada. mestiça. pluri-racional. multi-étnica. transnacional. diaspórica.

um indiano goês, duas portuguesas alentejanas, um afro-indiano nascido em áfrica, duas luso-indianas nascidas em áfrica, uma portuguesa alfacinha, um português beirão, duas crianças um quarto indianas e três quartos portuguesas e duas crianças um quarto indianas, um quarto africanas e dois quartos portuguesas.

aos 28 anos descubro que tenho uma família luso-tropical.

segunda-feira, janeiro 26, 2004

domingo

hoje não saí de casa. passei o meu domingo sentada na mesa da sala, envolta em textos sobre o luso-tropicalismo, aqui, em África, no Brasil, em Goa e no raio que o parta. fumei demasiado, comi quase nada, esqueci-me de ligar a aparelhagem e gastei duas preciosas horas de estudo numa tentativa frustrada de cozinhar almôndegas de soja que rapidamente se transfomaram em bolonhesa.

foi um dia de merda, mas não um dia desperdiçado. no final da noite, os pratos da balança equilibram-se: de um lado a reclusão doméstica e e o chão da cozinha "encerado" à base de azeite e bocadinhos de comida, do outro, três paginas escritas sobre o conceito de luso-tropicalismo e um tacho cheio de bolonhesa de soja.

podia ter sido pior...

sábado, janeiro 24, 2004

a voz que acompanha as minhas tardes de estudo

lula transformado em polvo

só um chefe de estado muito cobarde demite um ministro por telefone.

a pequena lula operária transformou-se rapidamente num grande polvo invertebrado.

o brasil não tem jeito mesmo!

sexta-feira, janeiro 23, 2004

ensonada...

...escuto o manel a ressonar no quarto. tem um ronco leve, uma quase respiração funda que já não me incomoda. na primeira noite que dormimos no mesmo quarto (por sinal não era um quarto, mas sim uma sala) custei a adormecer. julgava ter um vulcão em plena erupção ao meu lado... ou então que os montes das estremadura espanhola era sacudidos por violentos tremores de terra. mas não: era apenas aquele homem que adormecera ao meu lado, enfiado num saco cama, com umas almofadas a fazer de colchão. dois dias depois ligou-me. deixou uma mensagem no telemóvel: "era para saber se esta noite já dormiste melhor...?".

nessa altura não me passava pela cabeça que, anos depois, os seus troares noturnos seriam para mim a mais doce canção de embalar.

boa noite...

quinta-feira, janeiro 22, 2004

dificuldades de uma mestranda

quase uma da manhã. não estudei nada. revolvo a internet em busca de um livro, que só encontro numa livraria on-line em coimbra. envio e-mails desesperados à editora, implorando por informação, por um exemplarzinho em stock. percorro as bibliotecas mas nenhuma parece ter o meu livro, aquele livro que preciso. só a biblioteca nacional, aquele gigante que me come sofregamente as horas de almoço. ao fundo ouço o manel e a rita a falar. acho que vou mas é pegar no chá e ter com eles...

segunda-feira, janeiro 19, 2004

imaginem-me...

... a preparar um jantar romântico com o manel, convidá-lo antecipadamente, pedir-lhe conselhos, telefonar, reservar uma mesa, ir buscá-lo ao escritório, fazer uma cara marota, dizer-lhe "é uma supresa, é uma surpresa!", atravessar meia cidade para no fim... levá-lo a um restaurante vegetariano!

sábado, janeiro 17, 2004

não percebo...

...aquelas mulheres que entram à nossa frente na casa de banho, demoram eternidades para fazer um xixi e depois saem sem lavar as mãos. grandes porcas!

sexta-feira, janeiro 16, 2004

tss, tss, tss, tss...

já são quase três da manhã e em vez de estar na cama a dormir ou a estudar a diáspora goesa, estou para aqui feita parva a escrever no blog...

quinta-feira, janeiro 15, 2004

resposta ? mana grandinha

os los hermanos lançaram-se quando estava no brasil, com uma música que me irrita solenemente (adora esta expressão: irrita solenemente!), chamada ana júlia. foi um hit de verão em portugal uns anos depois. por isso, nunca tive qualquer interesse em ouvi-los com mais atenção. mas também fiquei surpreendida com as músicas cantadas pela maria rita e compostas pelo vocalista da banda.

agora... vamos lá a falar de coisas mais importantes:

1) que merda é essa de andares a fumar? caso não saibas, estás grávida!
2) que merda é essa de andares a beber? caso não saibas estás grávida!
3) que merda é essa de me chamares mana pequenina em público?

sobre o brasil e isso de teres nascido no sítio errado... não penses assim. às vezes arrependo-me de ter voltado, há momentos em que me invade uma sensaçao de nostalgia tão forte que me transporto para lá. é uma coisa física, que sinto na pele, que consigo rastrear pelo cheiro num milésimo de segundo, que saboreio na ponta da língua... vejo-me por momentos lá, como se conseguisse estabelecer pontos de telepatia com aquele país.

mas... por outro lado, voltar foi a melhor coisa que me aconteceu. foi sim! aqui é o meu lugar . lisboa é a minha cidade. portugal é o meu país. moçambique é a minha terra. goa e o alentejo são as minhas raízes. o brasil é o meu passado... é aqui que me sento plena.

quarta-feira, janeiro 14, 2004

dúvida mais que existencial

mas porque carga d'água é que me meti no mestrado??!!

um ano sem vida.

um ano sem dormir.

um ano em pânico constante.

porra!

domingo, janeiro 11, 2004

possibilidade de rir

Trasmontana que sou, cedo me habituei ao frio lá fora. Mas nunca me habituarei ao frio dentro dos corações. Passeava ontem pela baixa de Lisboa e vi o actor John Malkovich, presença habitual por estas paragem, a olhar a montra de uma loja de roupa. Não resisti, porque aprecio o seu trabalho há muito, aproximei-me e meti conversa. Perguntei-lhe se não preferia esperar pela época dos saldos que sempre é mais em conta. Ele olhou para mim e, durante breves segundos, parecia que ia dizer qualquer coisa. Depois virou-me as costas e continuou a andar sem uma palavra. A dor sente-se... mas às vezes também se vê.

não pode ser... será? anabela mota ribeiro na blogesfera? tem de ser no gozo...!

não vale a pena

para uma clara reflexão:

Não vale a pena
interpretado magnificamente por maria rita, ontem à noite no coliseu
J. e P. Garfunkel

Ficou difícil
Tudo aquilo, nada disso
Sobrou meu velho vício de sonhar
Pular de precipício em precipício
Ossos do ofício
Pagar pra ver o invisível
E depois enxergar
Que é uma pena
Mas você não vale a pena
Não vale uma fisgada dessa dor
Não cabe como rima de um poema
De tão pequeno
Mas vai e vem e envenena
E me condena ao rancor

De repente cai o nível
E eu me sinto uma imbecil
Repetindo, repetindo, repetindo
Como num disco riscado
O velho texto batido
Dos amantes mal amados
Dos amores mal vividos
E o terror de ser deixada
Cutucando, relembrando, reabrindo
A mesma velha ferida
E é pra não ter recaída
Que não me deixo esquecer
Que é uma pena
Mas você não vale a pena

regina

plagiando o Y: ela é regina!



não consigo dizer mais nada sobre o melhor concerto de 2004.

sábado, janeiro 10, 2004

impressionante...

acho impressionante que os meus pais tenham partido para goa terça-feira e que ainda não me tenham telefonado.

eles vão de férias, os três, todos contentes, com quase uma centena de quilos distribuidos por seis malas, chegam passado umas 30 horas e nem sequer um telefonema...!

e ainda por cima já têm linha lá em casa... um telefone inteiro, só para eles, com botões e auscultador. o que é que lhes custa marcarem o meu número de telefone? ou então ir a uma cabine???

sim, porque na noite antes de partirem eu estava doente! uma nevralgia paralisava-me metade da cara com dores... um horror, aquelas horas cheias de dores de cabeça, nas urgências com a minha mãe... que na altura, se preocupava com a sua filha mais nova... a despedida do meu pai e da minha tia, a fazerem uma cara de preocupação e eu, com a vista toldada das dores...!

nem um olá, filha, como é que estás? a mãe e a tia estavam preocupadas contigo... tens tomado os medicamentos? tens comido bem? e o trabalho? e o estudo?? e o meu pai ao fundo "ó solhange, deixe-me falar com ela! estou, filhota?!" nada. nenhum interesse.

trocaram-me pela tia maria, o marlindo e as filhas. pela diamante e o marido. pela tia amália e o tio xavier. pelo moreno, melinda e respectivos esposos e rebentos. pelo franky e a diana. pela tia quitéria. pela tia rosu e a sua cabana abandonada. pelo rio mandovi e os palmeirais a perder de vista. pelas casas caiadas e a terra vermelha. trocaram-me por goa... esqueceram-me...

e eu, eu que nunca me esqueço deles quando estou longe! telefono sempre, mando sms, e-mails. não gosto de pensar que eles ficam preocupados comigo.

tenho de ir lá a casa buscar o telefone dos meus tios. pode ser que ao ouvirem a minha voz se lembrem que também têm família deste lado do mundo...

quinta-feira, janeiro 08, 2004

prenda de natal

ontem recebi, via_postal_entregue_em_mão_na_minha_caixa_de_correio, a prenda de natal que mais queria. o novo disco de fausto: a ópera do cantor maldito.

quem me ofertou este belo cd (que ouço continuamente sempre que chego a casa) foi a minha amiga rita. a nunes...

e que boa amiga que ela é!

uma das coisas que lhe acho mais piada é quando se despede ao telefone. invariavelmente diz :"então vá...!". pergunto-lhe sempre: "vá onde? à merda??!". ela desata-se a rir, tenta lembrar-se de outra expressão qualquer, ri-se mais um pouco e acaba com o inviarável: "ok. então vá...! beijinhos!".

anda há mais de um ano obsecada com a sua festa dos 30 anos. depois de mil e uma ideias, resolveu-se a comemorar os mesmos na discoteca a que vai todos os fins de semana... julho de 2004 promete!

quando sofre de stress amoroso liga-me às duas da manhã. quando está bêbada e em companhia da terceira estarola (a menina vera), liga-me várias vezes durante a madrugada. guincham as duas qualquer coisa ao telefone que, por mais imperceptível que seja, por mais sono que tenha, me desperta o desejo de pegar no carro e ir ter com elas.

comprou uma casa na sé mas não vai para lá morar. "talvez em junho, julho...!".

há mais de seis meses que me assegura "é para o próximo mês que passo a ir de comboio para o trabalho!... é sim!". mas nunca vai.

é a mulher que durante anos e anos diz que nunca vai engravidar e depois, numa paixão de mês, anuncia: "era capaz de lhe dar cinco filhos!".

nunca chora. parece que nunca sofre. está sempre bem, numa boa, fixe...!

eu nunca lhe disse o quanto gosto dela. não se diz esse tipo de coisas à rita nunes. ela ri-se na tua cara, responde "eu sei! bebe mais um copo!". mas também não preciso. ela sabe. e eu vou beber mais um copo...!

para ti, rita, uma música do chico buarque, uma das primeiras que ouvi, das que mais gosto. mais do que a letra, dou-te a música e a voz, ao som das quais podes agitar as tuas duas bolinhas de espelhos!

A Rita
Chico Buarque/1965

A Rita levou meu sorriso
No sorriso dela
Meu assunto
Levou junto com ela
E o que me é de direito
Arrancou-me do peito
E tem mais
Levou seu retrato, seu trapo, seu prato
Que papel!
Uma imagem de São Francisco
E um bom disco de Noel

A Rita matou nosso amor
De vingança
Nem herança deixou
Não levou um tostão
Porque não tinha não
Mas causou perdas e danos
Levou os meus planos
Meu pobres enganos
Os meus vinte anos
O meu coração
E além de tudo
Me deixou mudo
Um violão

quarta-feira, dezembro 24, 2003

a minha prenda de natal

A banda
Chico Buarque/1966

Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Para ver, ouvir e dar passagem

A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela

A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar cantando coisas de amor

Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou

E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor

*************
espero que tenham gostado...!

sexta-feira, dezembro 19, 2003

when God closes a door, he always opens a window

quando era miúda vi vezes sem conta o música no coração, com a maria e o captain von trapp e os sete pequenos tenores. a dada a altura, ainda no início do filme, a madre superiora diz "when God closes a door, he always opens a window", frase que a maria repete várias vezes ao longo do filme e que acaba por ser seu final.

no início desta semana, achei que Deus (ou alguém chamado matias), me tinha aberto uma imensa e larga janela. mas este bem estar sofreu um leve revés: na semana em que comecei a trabalhar, o meu carro, parado e estacionado, foi abalrroado por um bêbado qualquer, e ficou impossibilitado de abrir a porta do lado do pendura e, ontem, foi o único violentamente assaltado na íngrime rua de s. marçal, mesmo em frente ao britânico! um agarrado partiu o vidro, antes disso forçou a porta, roubou-me o rádio (o filha da puta!!), levou-me o cd das cassia eller que a clara me tinha oferecido na noite anterior (o merdoso do filho da puta!) e o cd dos tribalistas que o manel me deu antes de irmos para férias (o caralho do merdoso do filho da puta!). ainda me revirou o carro de alto a baixo, levou-me os óculos escuros preferidos, enquanto dava duas ou três peidolas lá dentro...

a saber: às vezes, quando alguém abre uma janela, deve-se ter cuidado para não levar com a porta na cara!
anda alguém aos pulos na casa de baixo ou no sotão.

as luzes tremem um pouco, às vezes.

caralho, quem será?! a fazer um chavascal destes logo na noite de sexta feira que quero ir cedo para a cama???

afinal...!

o gajo sai ou não sai??

ha! já me esquecia...

vou voltar a descontar 11% do meu rendimento mensal para a segurança social.

segunda-feira, dezembro 15, 2003

segredos & mentiras



no meio do meu mau feitio, da minha personalidade (alegadamente) assertiva e seca, da minha eterna recusa em me assumir como nativa de caranguejo, supostamente maternal e protectora, descubro-me muitas vezes sentimental, sensível e lamechas pensando nos filmes que me põem de bem com a vida.

este é um deles. um drama familiar numa inglaterra chuvosa, o encontro de uma mãe com uma filha, a distância entre irmãos, os ódios entre cunhadas, o silêncio de refeições partilhadas, a vergonha, a cobrança, os segredos, as mentiras. todas as famílias têm os seus segredos e as suas mentiras, o seu pequeno microcosmos de drama, comédia, alegria e tristeza. esta é a história de uma família, de muitas famílias, todas elas potenciais argumentos para belos filmes do mike leigh.

quinta-feira, dezembro 11, 2003

sarmentinho

então um dos ministros de porra nenhuma muda de visual, deixa crescer a barba e eu não sabia? será que também anda a ter aulas de dicção para aliviar os rrrrs do seu discurso?

se...

a memorável frase de mafadant (é assim que pronuncio mas não sei se é assim que se escreve) dedicada ao meu amigo sérgio, há 12 anos atrás.

mafandant - o rufia do meu bairro suburbano, que roubava os miúdos, assustava as miúdas, sempre baixo, sempre atarracado, sempre andando devagar, a gingar, sempre falando num misto de pronúncia africana, arrastada, nasalada que soava desajeitada naquela cara morena de cigano, com olhinhos pequeninos e barba rala salteada nas faces.
dando uns bafos numa ganza, semicerrando os olhos.

sérgio - na altura um miúdo de 16 anos, miópe, com uns óculos que lhe escondiam os olhos azuis, de calças de ganga de marca, que comprará durante toda a sua vida, com a camisinha aos quadradinhos e gola branca da t-shirt a espreitar, acabado de fumar os seus primeiros cigarros e já com os acentuados laivos de arrogância que assume ter.
fumando um cigarro sobranceiro.

- eh pá, se eu tivesse a tua cara de beto... fodia taaanta gaja boa!

por outras palavras: dá Deus nozes a quem não tem dentes!

segunda-feira, dezembro 01, 2003

sexta-feira, novembro 28, 2003

o primeiro dia

Acabou. Acabou-se. Expulsaram o polvo da minha vida, as suas ventosas já não me prendem a nada, deixaram-me no vazio. É estranha esta sensação de libertação. É amarga porque queria ter sido eu a expulsar o polvo da minha vida: queria desenlear-me sozinha dos seus braços compridos, que me emaranhavam numa teia de estupidez, frustração e incompetência, arrancar-me do seu novelo burocrático e patético, libertar-me dele e da sua lógica ilógica.

A frustração é-me aplacada pela sensação de alívio, de leveza das horas, agora mais soltas, agora mais minhas. Há um outro sentimento que se impõe a curto prazo, que olho de relance e a medo, um sentimento de incerteza no futuro, de vazio das horas, das tais que hoje passam a ser só minhas e de mais ninguém. Mas não desanimo, nunca desanimarei porque, a toda a hora, cantarei comigo esta canção:

A principio é simples, anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado, que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso, por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio

e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vazia
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.

Sérgio Godinho
Pano Cru
(1978)

fim

este é o meu último post feito através do trabalho.

que alívio...!

quarta-feira, novembro 26, 2003

mulheres

eu gosto do público. informa, aponta, denuncia.

numa altura em que se fala de violência doméstica, violência contra as mulheres, volto a ler este dossier e continuo a não entender estas realidades.

terça-feira, novembro 25, 2003

a causa

esta gente diz que tem uma causa, uma causa que é deles, "uma causa-nossa".

que causa é essa? "(...)ser uma referência na esfera bloguística."

só um blog com a sempre-que-abro-a-boca-só-digo-disparates ana gomes, o coitadinho-de-mim-que-tenho-de-explorar-a-relação-tramada-com-o-meu-pai-para-vender-uns-livros luis osório (sobre quem tenho mais umas quantas teorias), o ex-jornalista-ex-director-de-jornal-ex-realizador-actual-deputado-socialista vicente jorge silva, o ex-companheiro-do-anterior-deputado-ex-director-de-agência-noticiosa-e-agora-quem-é-que-me-quer jorge wemans, o eu-sou-uma-sigla-com-mais-relevância-que-a-companhia-de-electricidade eduardo prado coelho, entre outros, poderia ter uma causa tão pretenciosa.

até metem pena...!

sexta-feira, novembro 21, 2003

arranja-me um emprego

Arranja-me um emprego
pode ser na tua empresa
concerteza
que eu dava conta do recado
e para ti era um sossego

Sérgio Godinho
Campolide
(1979)


* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
é o que preciso a partir do dia de hoje.

quinta-feira, novembro 20, 2003

Etelvina I

Etelvina já cansada de viver sem ninguém

a não ser de vez em quando amores de vai e vem

pôs um anúncio no jornal que dizia assim

mulher desembaraçada

quer viver com alma irmã

de quem não seja criada

de quem não seja mamã


Sérgio Godinho
À Queima Roupa
(1974)

respeitem os seus cabelos brancos

mulher eu sei


eu sei como pisar

no coração de uma mulher

já fui mulher eu sei

para pisar no coração de uma mulher

basta calçar um coturno

com os pés de anjo noturno

para pisar no coração de uma mulher

sapatilhas de arame

o balé belo infame

para pisar no coração de uma mulher

pés descalços sem pele

um passo que a revele

Chico César
Aos Vivos (1994)

uma cena de fadas

todas as manhãs levanto-me, tomo banho, visto-me, lavo os dentes, arranjo a mala, envio um sms à raquel a dizer que estou a sair de casa, escolho o anel, escolho os brincos e olho o meu belo adormecido adormecido na cama. todas as manhãs olho-o e pergunto-me "como é que eu posso deixar este belo adormecido sozinho nesta cama?". todas as manhãs faço-lhe uma festinha na cara e beijo-o, ora num longo, ora num instantâneo beijo de acordar, de bom dia, de já é hora, já passam das nove... todas as manhãs ele abre os olhos, olha-me, boceja e espreguiça-se enchendo a cama de braços esticados.

todas as manhãs vivo um conto de fadas, beijando e despertando o meu amor belo e adormecido.

quarta-feira, novembro 19, 2003

fausto

o fausto tem um cd novo! o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!

ena! ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!

que excitação...!

em família

Desde 1976, uma família argentina fotografou-se todos os anos, sempre no mesmo dia, na mesma posição e no mesmo lugar.

salamaleques arabescos

não gosto das pessoas que se escondem atrás das palavras, que sarapintam os sentimentos de acessórios rococós que encandeiam o mais atento leitor. não quer isto dizer que não gosto de poesia. leio-a através das músicas e canto-a com sons, fonemas e interjeições. mas notem: o vinicius de morais não se entrega ao salamaleques arabescos para escrever sobre o amor, nem o fausto, nem o tom jobim, nem o camões, nem o fernando pessoa, nem o chico buarque, nem o jacques brel. qualquer pessoa os lê e os compreende...

terça-feira, novembro 18, 2003

segunda-feira, novembro 17, 2003

tom

Só tinha de ser com você

É, só eu sei
Quanto amor eu guardei
Sem saber que era só prá você

É, só tinha de ser com você
Havia de ser prá você
Senão era mais uma dor
Senão não seria o amor
Aquele que a gente não vê
O amor que chegou para dar
O que ninguém deu pra você

É, você que é feita de azul
Me deixa morar nesse azul
Me deixa encontrar minha paz
Você que é bonita demais
Se ao menos pudesse saber

Que eu sempre fui só de você
Você sempre foi só de mim

Que eu sempre fui só de você
Você sempre foi só de mim

António Carlos Jobim
Aloysio de Oliveira

(1964)

à ana

tremo. mas não frio, aqui nesta sala aquecida. tremo. não consigo controlar o meu corpo, parece que me descarregam choques eléctricos nas costas, os meus dedos não acertam nestas teclas demasiado juntas. tremo de frio, afinal... de um gelo que me assaltou ainda há pouco. as minhas pernas estremecem e os meus cotovelos não se conseguem apoiar nesta mesa. vejo o cigarro que fumo em equilíbrio perquilitante à minha frente, na curta viagem entre o cinzeiro e a boca. tremo de frio, de medo, de medo, de medo.

já viste? sou a única pessoa que te chama de mana. nem o joão, nem a dadá, nem o reinaldo, nunca nenhum deles poderá ouvir-se a dizer mana. falar mana. sorrir mana. gritar mana. chorar mana. este é o meu único exclusivo em relação a ti. e como lhe tenho apreço! o prazer que me dá soletrar mana quando estou contigo... é esse o teu nome para mim. sabes que quando era miúda, e não tinha nada que fazer nas aulas, escrevinhava o teu nome nas folhas do caderno? que quando comprava uma caneta nova era o teu nome que a minha mão desenhava no papel? estreavas-as sempre com o teu nome, não com o meu. o teu nome bonito, claro, radioso, que me fazia inveja por soar tão bem, por ser curto e ritmado, por ter um ar doce, de menina. todas as músicas eram com o teu nome, ao contrário do meu, que embora também englobe o teu, se perde e se enfada na antecipação das letras. lembraste?

sabes que não imagino a minha vida sem ti? tal e qual o joão ou a dadá. és a minha pequena mãe. a minha irmã mais velha. o meu porto seguro. alimentas-me os dias. nunca reparaste como digo mana com um orgulho que me enche o peito, com um amor que que me extravaza?

queria morrer antes de ti... para nunca sentir a tua falta.

para a mana

Eu contigo

Eu, contigo
eu consigo
fazer o que digo

Eu, contigo
eu não cobro
eu não pago
e eu não devo

Devo dizer-te ao ouvido
eu sem ti
não tem sentido
tem sido
(devo dizer-te ao ouvido)
bem bom
bem bom bem bom
bem mais
do que o que é bom
bem bom bem bom

Sérgio Godinho
Canto da Boca (1981)