domingo, outubro 17, 2004

como de um post sobre a possibilidade de integrar ernesto e alberto na lista de possíveis-nomes-para-os-meus-filhos passo para o pesadelo de darfur

sentir-me-ia estúpida, ridícula se, depois de ter lido este artigo, viesse para aqui por-me a divagar sobre nomes, apelidos e alcunhas.

é longo, este artigo. não sei sequer se será imparcial e objectivo, mas acredito que quem o escreveu experienciou um pouco deste pesadelo-realidade que o mundo insiste em querer ignorar.

Darfur Epitáfio para Dois Milhões de Vivos

Paulo Moura

Um homem alto, velho e esguio representa um estranho número para um grupo muito interessado de espectadores reunidos à sua volta. Gesticula, salta e grita furiosamente, enquanto vai colocando, em várias posições diferentes, quatro tijolos no chão. Isto é Nyala, capital do Darfur do Sul. As ruas, uma confusão. Em terra batida, cheias de buracos. Lixo. Poeira. As mulheres com os tops de uma peça só, vermelhos, verdes, amarelos ou às flores, numa babilónia de códigos tribais, de recados tácitos no seu silêncio, que todos compreendem, ou ninguém compreende. Hadari, Tarjan, Rizaigat, Masalit, Zagawa, Fur, tribos árabes e africanas, todos juntos nas ruas, na confusão, os aliados, os rivais, o irmãos, os contendores, as vítimas, os assassinos. Isto é Nyala. Todos no bazar a céu aberto.

Os homens de túnica branca, a jalabia tradicional sudanesa, na versão com botões ou lisa, o mahdi. Com as calças interiores, o seroal, e o barretinho branco bordado, o taghia, ou turbante, o imma, no caso de terem mais poder, ou mesmo a assaia, a bengala, se tiverem uma posição proeminente na hierarquia da tribo. Nesse caso poderão ainda usar sapatos de leopardo, ou de cobra, a assala, uma serpente gigantesca por temor da qual, diz a sabedoria popular, qualquer um que tenha de dormir na floresta o deva fazer de braços e pernas bem abertos, para não ser facilmente engolido durante a noite...

A alguns metros, as pessoas confundem-se com a poeira. A poeira mistura-se com os cheiros, os aromas quentes e inesperados das mezinhas e tisanas que invadem os mercados da rua. Das frutas, os fritos, o peixe seco, a carne podre.

Da ferrugem seca, da borracha queimada. Ao lado da "bomba de gasolina" feita de bidões, a feira de peças velhas de automóvel, amontoadas no chão, a fumegar, indistintas na sua sinistra amálgama, como os despojos de uma catástrofe. O ferro-velho mistura-se com a comida, as bagas, as folhas, os óleos, o carvão, a roupa, os freios dos camelos, as albardas dos burros, o lixo. Isto é Nyala. Montanhas de lixo, nuvens de lixo, tempestades de lixo. O lixo mistura-se com as pessoas. As pessoas confundem-se com o lixo. Quase não há casas, tudo acontece ao ar livre, e quase não há carros, o tráfego é constituído por pequenos riquexós motorizados, cavalos e burros, a maioria puxando uma carroça, algumas com sistema de som, canções árabes aos berros pela rua abaixo.

As "lojas" são improvisadas, não mais do que uma banca, uns panos, uns caixotes. Montam-se e desmontam-se, mudam de sítio. Dá a impressão de que toda a cidade se poderia desarmar em meia-hora, deixando apenas o lixo, e que nesse total desaparecimento não estaria implícita uma grande mudança na paisagem.

Não obstante, a cidade está viva. Estranhamente viva. Multidões acotovelam-se nos bazares labirínticos, de tendas esfarrapadas, junto às bancas onde se vendem punhais e catanas, pelos mercados de livros espalhados no chão, a perder de vista, como um lençol branco e ondulante, as páginas a esvoaçarem, finas, escritas em árabe, quase transparentes, num rumorejar de papel de arroz, de penas. Ou à volta do homem que inventa mil e uma maneiras de dispor quatro tijolos.

Tem um enorme saco de pano branco cheio de areia, que atira de um lado para o outro, e assenta entre os tijolos. Parece estar zangado, impaciente. Está a vender alguma coisa? A fazer propaganda? A evangelizar?

"Está a ensinar", diz-nos em ingês um jovem de bigode e camisa branca impecável. "A ensinar a sepultar os mortos, segundo o Islão. As pessoas não sabem ou, com a pressa, colocam os corpos com a orientação errada".

É uma lição de ciência funerária. "Ele está a dizer que não é por se sepultarem os mortos à pressa ou em grandes quantidades que se pode fazê-lo de maneira imprópria", traduz o jovem, sem compreender por que razão alguém sepultaria um familiar à pressa.

"Chamo-me Mortada", apresenta-se ele. "Cheguei ontem de Cartum, onde vivo. Disseram-me que no Darfur poderia encontrar trabalho. Sabe de alguém que tenha um emprego para mim?"

Mortada destoa completamente no cenário circundante. Não só por usar calças e camisa e por estar limpo. Também e acima de tudo pela sua expressão cortês, de executivo diligente e atarefado. "Estou a juntar dinheiro para emigrar para o Canadá". Abre a "pasta" preta que traz consigo, nada menos do que a capa do menu de um restaurante de hotel, para mostrar os recibos de centenas de dólares que já pagou, durante quatro anos, a uma duvidosa empresa sudano-canadense que lhe prometeu um visto. "Preciso de trabalhar, para pagar todas as despesas. Espero, no prazo de um ano, estar no Canadá".

Empregamo-lo como tradutor. Após uma breve conversa sobre as entrevistas que faremos e os locais que visitaremos, Mortada tem lágrimas nos olhos. Nunca ouvira falar da crise humanitária do Darfur.

Ávido de desempenhar competentemente a sua tarefa, quer aprender a soletrar correctamente algum vocabulário de que irá necessitar. Abre a sua capa profissional onde se lê, a dourado, "Hotel Palace". No topo da única folha em branco que tem no interior escreve em inglês, em maiúsculas: "GENOCÍDIO, VIOLAÇÂO, LIMPEZA ÉTNICA"

Partimos de Nyala, rumo aos Campos de Deslocados. Segundo a ONU, são muitas centenas, espalhados por todo o território do Darfur. Ao todo, quase dois milhões de pessoas fugiram das suas aldeias e estão em perigo de vida, por falta de comida e medicamentos. Fugiram, segundo as autoridades, por causa da guerra lançada pelos rebeldes, do Movimento de Libertação do Sudão (SLM) e do Movimento para a Justiça e Equidade (JEM), que combatem as forças governamentais, com o objectivo de conquistarem o poder. Foi esta a tese que Mortada ouviu na televisão, em Cartum.

Nos arredores de Nyala, há aldeias habitadas, com mulheres e crianças à volta das pequenas casas redondas, com telhados de palha e paredes feitas com uma amálgama de lama, fezes de burro e palha. À medida que o carro avança aos solavancos pelos trilhos, entramos numa mata selvagem, de vegetação rasteira mas densa, a chamada savana pobre, que caracteriza as regiões a Sul do deserto do Sara.

Num lago fétido, formado pelas chuvas repentinas dos últimos dias, meninos tomam banho nus. Mulheres avançam pelos caminhos, com pilhas de lenha à cabeça.

Mas ao afastarmo-nos escassos quilómetros da cidade, a paisagem muda. Todas as aldeias estão vazias. Algumas destruídas. Pássaros de enormes bicos curvos ou plumas de cores bizarras ocuparam as carcaças das cubatas, lançando gritos estridentes na savana devolvida ao estado primitivo. A atmosfera tem o assombro de uma fábula. Sentimo-nos intrusos. Tudo palpita e cintila, como se na selecção natural todas as espécies vivas - excepto uma - tivessem uma história de sucesso para contar. Excepto a nossa.

Os seres humanos só voltam a habitar a paisagem nas imediações de Oteich, um dos Campos de Deslocados, onde se refugiam cerca de 18 mil pessoas. Antes de entrarmos, cruzamo-nos com algumas mulheres a carregar lenha, com burros e vacas muito magros, bandos de crianças a gritar "ok, ok, ok", correndo atrás do carro onde viram um estrangeiro. Mas a maioria não sai do perímetro do campo. Fora dali ninguém lhes garante a segurança, explicam. E ali também não. Mas tinham de refugiar-se em algum lugar. As cerca de dez mil cabanas, a que chamam "burmas" aglomeram-se a menos de um palmo umas das outras, construídas com ramos e plásticos, ao ritmo do próprio medo.

"Eu vim a pé, da aldeia de Bolbula, com os meus quatro filhos. O mais velho foi morto. Também mataram os meus pais e os meus quatro irmãos. O meu marido desapareceu, não sei se está vivo ou morto", conta Mariam Isak Ahmed, num relato angustiado idêntico aos que viríamos a ouvir centenas de vezes. "De madrugada, um avião bombardeou a aldeia. Destruiu a maior parte das casas, matou muita gente. Logo a seguir, atacaram os janjawid, uns 30 ou 40, montados em camelos e cavalos, armados com espadas e metralhadoras". A história do costume, repetida até à vertigem, até à náusea, até à banalidade. A história do Darfur. "Começaram a matar todos os homens. Vi violarem algumas mulheres. Lançaram fogo à aldeia. Quem pôde, fugiu. Dispersámo-nos. Nunca mais vi o meu marido".

Outra mulher, Mariam Jacob, 19 anos, tem ao colo um bebé de 18 meses, Abdelmajid Josef. "Eles chegaram de manhã. Mataram os meus pais e os meus irmãos. Incendiaram a aldeia. Roubaram tudo. Eu fugi, mas tenho muito medo. Eles estão aqui", diz ela, referindo-se aos polícias que guardam o campo. Dir-se-ia que contraíu uma paranóia de perseguição, que está louca. O minúsculo e ressequido Abdelmajid chora ininterruptamente. "Não tenho leite, a mama secou. Onde vou encontrar comida para ele?" Mariam diz isto com a voz a tremer. "Onde vou encontrar comida?"

Um homem de 36 anos, Amin Josef Abderazik, conta como dos seus sete filhos só um sobreviveu. "Já era costume os árabes virem assaltar a nossa aldeia, Kidi Nir. Mas a Polícia protegia-nos como podia. Desde há seis meses, as coisas pioraram. A Polícia saiu da região, deixando-nos à mercê dos janjawid". Abderazik era um agricultor abastado. Tinha cavalos e um tractor, cultivava goma arábica, sorgo, cebolas e tomates. Perdeu tudo. Os janjawid (palavra que, em árabe, significa "demónios a cavalo" ou "cavaleiros do Inferno") atacaram a aldeia há três meses. "Foi óbviamente tudo concertado. Primeiro surgiram aviões e helicópteros, das Forças Armadas sudanesas. Largaram três bombas, que destruíram cinco casas e a escola. Logo a seguir vieram os janjawid, em cavalos e camelos, armados com metralhadoras kalashnikov e GM3. Alguns vestiam camuflados, outros uniformes do Exército sudanês. Cercaram a aldeia, e incendiaram o que restava dela. Começaram a matar indiscriminadamente. Assassinaram 250 pessoas. Roubaram tudo, gado e comida. Não podíamos defender-nos, só os árabes têm armas. Fugimos. Mais de cem pessoas. Viemos todos juntos, até aqui".

Abderazik admite que simpatiza com o SLM, um dos grupos rebeldes. "Eles estão armados, podem proteger-nos. Defendem os africanos". Mas garante que não havia nenhum guerrilheiro na aldeia.

Uma mulher, Assida, veio há quatro meses, de Doggi, nas montanhas do leste. Foi a primeira a chegar a Oteich. Os janjawid mataram-lhe o marido e o filho, ela fugiu, com mais 14 raparigas. "Não havia nada aqui. Mas depois chegou o WFP (Programa Alimentar Mundial). Durante alguns meses, distribuíram comida. Agora há gente a mais, a maioria não tem senhas, que já não são distribuídas. A maioria passa fome. Hoje, por exemplo, ainda ninguém comeu nada".

Ao princípio, os refugiados falavam a medo, constrangidos pela presença dos seguranças do Campo, receosos de que os seus relatos lhes custassem punições, represálias. Mas agora, encorajados pela coragem dos primeiros, todos querem falar. Juntam-se à nossa volta em chusma, gritam, discutem, quase lutam para que lhes seja dada a vez, indiferentes ao facto de, como muitos descreveram, alguns dos janjawid que os atacaram estarem agora ali a guardar o Campo, entretanto convertidos em polícias.

Todos querem narrar o seu caso pessoal, sem se aperceberem de que é igual aos outros. Todos querem falar da fome e das doenças.

Uma mulher, Hawha Ahmed, de 25 anos, exibe os olhos amarelos dos três filhos. Outra traz o marido que está a morrer de diarreia. Outra ainda mostra a bebé que traz ao colo, Rogaia Abaker, de 18 meses, a cabeça coberta com um pano. "Foi às dez da noite que os janjawid chegaram a Bakhit. Começaram a matar as pessoas, o meu marido desapareceu, deve ter morrido. Depois incendiaram as casas. A Rogaia ficou ferida no fogo". E neste momento a mulher faz algo de terrível. Lentamente, sem por um único momento olhar para a filha, descobre-lhe a cabeça. É impossível conter um grito de horror. Rogaia tem o cérebro exposto. O crânio aberto, os miolos a palpitarem no calor insuportável do Darfur, róseos e húmidos, debruados de veias, lavrados de membranas. Uma menina viva com o cérebro nu.

"Foi ao médico?", perguntamos, mas já tudo está distante, já o Campo de Oteich se transformou no cenário de um pesadelo difuso, demente, incompreensível. "Porque não vai ao médico?" Um cenário desumano. Cada vez mais grotesco e cada vez mais natural aos nossos olhos. O absurdo é embriagante. Já nada surpreende. Isto é o Darfur. Como sob o efeito de um narcótico, ouvimos mais histórias de horror. Vemos mais doentes, mais feridos. Uma mulher conta-nos como a prima foi violada, na aldeia de Aluf. Insiste em levar-nos até ela, para ouvirmos o relato em primeira mão. Entramos numa burma com Amuna Abelrahman, uma rapariga alta e atraente, de 20 anos. Estão presentes apenas a prima e o líder tribal, mas lá fora aglomera-se uma multidão, sedenta dos pormenores da violação. Todos sabem o que aconteceu a Amuna e a outras 25 mulheres da aldeia. Todos conhecem de cor as práticas dos janjawid, mas nem por isso deixam de votar as violadas ao opróbio e ao ostracismo.

"Eu e a minha prima andávamos a apanhar lenha, perto da aldeia, à tarde", conta Amuna, sem levantar os olhos, desenhando quadrados no chão, com um dedo. Mortada vai traduzindo, num sussurro. "Eram cinco horas. Eles chegaram, cinco homens a cavalo, com kalashnikovs. Apearam-se, correram atrás de nós. Fugimos, mas eu caí, e apanharam-me. Dois deles ficaram a agarrar-me os pés e as mãos, os outros três fizeram sexo comigo". Amuna cala-se. Gotículas de suor formaram-se por todo o seu rosto escuro e suave. A prima continua, a chorar: "Os janjawid fugiram, ela ficou no chão, inconsciente. Fui lá buscá-la, com alguns vizinhos. Trouxemo-la de burro para a aldeia. Ficou três meses no hospital. Por sorte não engravidou". O pai de Amuna morreu, de desgosto e vergonha e um primo mais velho, que já tinha três mulheres, casou com ela, para não ficar sozinha.

Ouvimos mais histórias, vemos mais crianças doentes, ou feridas, muitas sem terem recebido qualquer tratamento, apesar de haver uma clínica no Campo. A mãe de Rogaia diz que foi ao médico, mas é evidente que está a mentir. O cérebro da menina não apresenta nenhuma espécie de curativo.

"A maior parte dos doentes tem malária, febres, vómitos ou diarreias. Muitos deles ferimentos, que se tornaram graves por terem ficado meses sem tratamento", explica-nos Badaoui Jaffar, um dos dois médicos, voluntário sudanês. A sala de espera da tenda que constitui a clínica está repleta de doentes, alguns deitados no chão, de olhos fechados. Uma menina de 9 anos está a ser tratada. Tem uma ferida enorme e horrível abrangendo o pé e parte da perna. "Foi uma bala, dos janjawid, há duas semanas", explica a mãe. Só hoje foi tratada. O médico não consegue afastar os milhares de moscas da ferida aberta. Mariam diz que lhe dói muito, porque lho perguntamos, mas não chora.

"Quase todas estas doenças seriam facilmente curáveis", diz o médico. "Mas faltam-nos os meios básicos. Há cada vez mais refugiados que chegam, muitos não vêm ao médico, não se sabe porquê. Certas pessoas andam meses com feridas profundas. Quando as vemos, é demasiado tarde. Não temos forma de fazer um levantamento dos problemas de saúde. Só aqui vem quem quer".

Visitamos outros Campos, Kalma, o maior de todos, com mais de 85 mil refugiados, Asseref, com mais de 70 mil. Aqui, pelo menos cinco mil pessoas chegaram demasiado tarde para receberem as senhas de comida do WFP, e estão a morrer à fome. Outros tantos de doenças. A atmosfera está carregada de desespero, de terror. Ao contrário de Kalma, neste Campo não há uma administração oficial, nem polícia. Os janjawid andam nas imediações e atacam quem se aventure a ir apanhar lenha, ou, durante a noite, no próprio campo, que é liderado por um chefe tribal. Morrem umas dez pessoas por dia, diz ele, que mantém uma lista actualizada de toda a população. "Mas ontem chegaram dez, e anteontem 20..."

Amar Gedit chegou com os filhos durante a noite. Os janjawid mataram-lhe o marido em Dresa, uma aldeia a 20 quilómetros daqui, há dois dias. Outra mulher diz ser a única sobrevivente de uma família de dez pessoas, outra queixa-se de que não come há uma semana, outra de que tem o marido e os filhos doentes. Há cada vez mais gente à nossa volta, num coro de histórias macabras e queixumes. As pessoas falam todas ao mesmo tempo, gritam, apertam o círculo. "Eles vieram à meia-noite, a cavalo..." "Antes só roubavam, agora matam..." "Os aviões lançaram bombas, depois os janjawid cercaram-nos..." "mataram sete pessoas da minha família..." "Roubaram tudo, levaram as vacas, queimaram as colheitas..." "Mataram o meu irmão..." "Mataram o meu filho..."

A temperatura é de quase 50 graus. O cheiro insuportável. Não se consegue respirar. Mortada berra, empurra, mas não consegue impor a ordem. Logramos furar por entre a turba alucinada e infecta, fugir, mas perseguem-nos, aglomeram-se de novo à nossa volta. Agora sim, começam a organizar-se: atiram para a frente os que têm histórias mais horrendas, e os mais doentes. Uma mulher de 40 anos, Fatma Adam, conta: "O meu filho correu atrás das vacas, que estavam a ser roubadas, e um janjawid apanhou-o. Enterrou-lhe uma lança na boca, uma lança comprida, como as que eles usam, uma arba. Enterrou-a com toda a força na boca do meu filho, até lhe sair pelas costas".

Asha Isa, 24 anos, mostra-nos o filho doente. Tem dores de estômago e diarreia e a cara empapada em lágrimas e moscas, que a mãe já se cansou de sacudir. Não foi ao médico porque há demasiadas pessoas à espera, diz ela. Abdelcrim Suleiman, 40 anos, exibe os dez filhos, todos doentes, com diarreia e febre. O marido tem malária. Zarha Moussa Ali, 36 anos empurra para a frente o filho de quatro anos, que tem diarreia e os olhos amarelos e acaba por cair aos seus pés, sem forças. Rasha Adam Ateib, 25 anos, está grávida de nove meses. Os janjawid cercaram a sua aldeia, Cornei, depois do ataque aéreo, de nove bombas. "Incendiaram as casas e ficaram à espera que saíssemos, para depois dispararem sobre as pessoas em fuga. Quase toda a gente morreu, incluindo o meu marido. Eu vi, um a um. Fugi sozinha".

Rasha não tem senhas de comida, nem conhece ninguém. Não sabe o que fará quando nascer Mohamed, ou Mariam, se for menina.

Mortada decide alertar as médicas do Campo, quando falarmos com elas. Para que procurem Rasha e assistam o parto. Mas esquece-se.

Chegamos a Nyala com muitos nomes a ecoar na cabeça - Mariam, Asha, Fatma, Kaltum, Amuna, Rasha, Rogaia - mas uma só história, mil vezes repetida.

Para desespero de Mortada, a realidade é inequívoca: as milícias armadas das tribos árabes, os janjawid, estão a actuar em coordenação com as forças governamentais sudanesas com o objectivo de exterminar parte da população das tribos africanas do Darfur. Todos os refugiados dos Campos pertencem a tribos "africanas" - Fur (Darfur significa "terra dos Fur"), Zagawa, Masalit. E todos os janjawid, segundo os testemunhos, pertencem a tribos "árabes" - Hadari, Rizagat, Tarjan. A guerrilha rebelde nasceu no seio das populações "africanas", numa contestação contra o Governo central de Cartum, dominado pelos "árabes", e o abandono a que foi votada a região e as populações "africanas". Estas, por sua vez, apoiam, de forma evidente, a rebelião, pelo que o Governo optou por atacar o mal pela raiz: exterminar os "africanos", ou pelo menos confiná-los a "campos de concentração" onde as suas actividades possam ser vigiadas. Como não conseguia fazê-lo sozinho, uma vez que a maioria dos soldados é de origem "africana", pediu ajuda aos chefes tribais "árabes", usando a seu favor a rivalidade ancestral entre os dois grupos étnicos. Rivalidade baseada mais nas quesílias endémicas entre pastores nómadas e agricultores sedentários do que na etnia propriamente dita, já que árabes e africanos há muito que se miscigenaram no Darfur, têm a mesma religião - o islão - e falam a mesma língua, o árabe.

Os "gangs" de árabes nómadas, montados em cavalos e camelos, armados de espadas e lanças, que atacam as aldeias para roubar gado e colheitas são uma tradição imemorial no país. A novidade é que agora têm metralhadoras e são apoiados por bombardeamentos aéreos.

"Não posso acreditar que o nosso Governo está a matar as pessoas. Em Cartum, ninguém sabe isto". Nem mesmo a Mortada, cuja vida mudaria para sempre com esta descoberta, resta qualquer dúvida.

O que está por explicar é por que razão as pessoas não vão ao médico. Simone Niederastroth, uma das duas médicas alemãs de Asseref, tinha-nos contado que tratam umas 200 pessoas por dia, principalmente de malária, infecções gástricas e de pele, otites e feridas infectadas. Mas que poderiam tratar mais, assim elas aparecessem na clínica. E que a situação é tanto mais grave quanto é quase certo, se os cuidados médicos não se intensificarem nos próximos meses, o surgimento de epidemias que matarão milhares de pessoas.

A explicação surgiria inesperadamente num dos mercados de Nyala, através de uma personagem burlesca e intrigante que se apresentou como Achir Ahmed Al-Baferi, iemenita, feiticeiro. Barba grisalha comprida em bico, óculos de espelho, dentes de ouro, chapéu mexicano sobre um barrete de renda, túnica branca, lenço às riscas e um Corão, Al-Baferi é um homem que não passa despercebido. Compreende-se que parte da sua autoridade lhe advém do "look" radical, que cultiva com grande competência. "Curo todo o tipo de doenças psicológicas, a maior parte das malárias e mais de 30 espécies de cancro, com o recurso exclusivo a plantas e rezas", declara. E oferece-se para uma visita guiada ao mercado.

Nada é o que parecia. Com as explicações do feiticeiro, enquanto caminhamos entre as bancas e os produtos expostos no chão, a cidade transforma-se num mundo mágico. "Isto é gorinjan, cujo chá cura os males intestinais", ensina, apontando para um cesto de raízes secas. "Esta pasta verde é chamarr, que dá sabor à comida e faz baixar a febre. Esta casca de árvore chama-se girfa e é óptima para as infecções cutâneas. Isto parece favas pretas mas é haradip, o principal remédio contra a malária. Carcadê faz baixar a tensão arterial, godem é bom para quem não tem sangue suficiente, tubeldi põe-se em água até fazer papa e cura a prisão de ventre".

Al-Baferi pára junto a uma banca que vende "produtos para as senhoras". Dicka, um pó avermelhado para tornar a pele mais macia. Khombra, um óleo aromático para fazer uma mulher irresistível. Só para casadas. Chaf... é melhor ser a vendedora a explicar as propriedades dos pauzinhos semelhantes a canela, sugere o iemenita.

"Bem, há aquelas moças que já foram um pouco... usadas. Ou que tiveram um filho...", começa a vendedora gorda, com ar malandro. "Faz-se uma fogueirinha com chaf, até deitar muito fumo. Então a mulher que tem o problema despe-se da cintura para baixo e senta-se assim..." Exemplifica, pondo-se de cócoras sobre os pauzinhos. "Este fumo especial trabalha-lhe aqui as partes, deixando tudo apertadinho de novo..."

Al-Baferi vai apoiando com a cabeça, com toda a autoridade que manifestamente lhe reconhecem. É claro que no Darfur ninguém tem o hábito de consultar médicos. É natural que olhem com desconfiança os voluntários estrangeiros que trabalham nos Campos de Deslocados.

Al-Baferi, que vive nas montanhas e só desceu ao povoado para comprar algumas raizes, diz que está a elaborar, para entregar à ONU, um completo relatório. Um trabalho de pesquisa com soluções para a crise humanitária - à base de chás que curam todas as doenças, especialmente a loucura - e para a crise política.

Neste capítulo, só há um remédio: usar os líderes tribais. "Só a eles as pessoas ouvem e obedecem. Não aos políticos ou aos estrangeiros. O Governo deve reunir os chefes das tribos, que representam o povo".

Em Cartum, Musa Hilal, considerado o líder de todos os janjawid do Darfur, indicara-nos os nomes de dois chefes tribais árabes na região de Nyala - Mohd Jakob Elomba, chefe dos targem, e Abdalah Abunova, dirigente máximo dos mahria. Tentar encontrá-los em Nyala não é tarefa fácil. À simples menção dos seus nomes, a maior parte das pessoas cala-se, ou foge. "Eles são os chefes dos janjawid", disse-nos um vendedor. "São homens muito perigosos. Não contem a ninguém que vos disse isto".

Depois de muita investigação, com a ajuda do chefe da polícia e do juiz, ambos "árabes", encontrámos a casa de uma das quatro mulheres de Elomba, Hawah Shahta. Mas o único vestígio do grande chefe é o seu cavalo, o Arkalzal (Terramoto). Elomba partiu de jipe para a aldeia de Bulbul, onde tem outra esposa, para resolver um conflito tribal precisamente com o seu amigo Abunoba.

O autocarro para Bulbul é um indiscritível monte de sucata ferrugenta com os vidros partidos, embora todo forrado, por dentro, a veludo vermelho e berloques. Os passageiros têm de sair e empurrar, para que o motor pegue, mas depois avança aos pinotes pelos trilhos como se fosse um todo-o-terreno. O sol está a por-se na savana pobre. Surgem as primeiras aldeias, todas arrasadas. A seguir, bandos de nómadas, em camelos. Numa paragem entra um homem que declara não ter dinheiro para o bilhete. "Não tens mesmo? Então podes vir", diz o condutor. Mortada aproveita para explicar as tradições sudanesas de entreajuda. Nafir, é quando alguém precisa, por exemplo, de construir uma casa, e todos ajudam. Faza, é quando alguém morre e todos correm para apoiar, dar consolo", vai dizendo, enquanto passamos por casas incendiadas e crateras de bombas.

Chegamos a Bulbul. A aldeia está pejada de homens de camuflado e metralhadoras, sinal de que os líderes janjawid estão por perto. Dois dos guardas aproximam-se e Mortada estende-lhes o papel que retira da capa do menu do Hotel Palace e onde escrevera os nomes dos dois líderes. O homem da kalashnikov começa a ler com todo o vagar e... Maldição! No topo da folha pode ler-se, em maiúsculas "GENOCÍDIO, VIOLAÇÂO, LIMPEZA ÉTNICA". É tarde de mais para lhe tirar o papel. Ele não o larga mais. Faz-nos sinal para o seguirmos.

Junto a um grande toldo feito de ramos, um abrigo de nómadas, não longe de várias casas com paredes de bosta e erva, estão três jipes, dezenas de guardas armados e os dois chefes, com os seus séquitos. Já foram avisados da nossa chegada e preparam-se para a entrevista.

"É uma grande honra que um irmão jornalista português tenha vindo de tão longe para descobrir a verdade sobre o Darfur", diz Abunoba, um homem com 1,90m, de jalabia branca imaculada e sapatos de leopardo. Uma bengala, um relógio de ouro e uma pasta de executivo completam a indumentária que, juntamente com o colega Elomba, os distinguem dos outros.

Sentamo-nos num tapete e Abunoba começa a dissertar sobre as origens da crise na região. "A ONU e os americanos falam de genocício, mas isso não é verdade. Há um conflito normal entre dois tipos de sociedade: a dos pastores e a dos agricultores. Dantes, estes conflitos eram resolvidos pelos líderes tribais, com os seus tribunais e a sua lei, que se chama Orf. O que se passa agora é que houve um aproveitamento político destes conflitos. Os rebeldes do SLA começaram a atacar os nómadas, a roubar, e a convencer os africanos de que é preciso lutar contra os árabes e o Governo".

Cai a noite, chega a hora da oração. Alguém grita "Alá uh Akbar!" Abunoba pede desculpa por interromper a entrevista e todos se prostram voltados para Meca, as jalabias brancas como que acesas pelo luar intenso.

Jantamos, grandes pedaços de carneiro com molho de sorgo, e continuamos a conversa pela noite dentro. Abunova e Elomba mostram as espadas (jafir) e os punhais que usam, quando viajam a cavalo. As lanças enormes (harba) iguais à que matou o filho de Fatma. Contam como as suas tribos vieram da Arábia, criticam as acções dos americanos, a guerra do Iraque, as mentiras da ONU e a campanhas de propaganda dos rebeldes, explicam como funciona a lei Orf, os julgamentos, as multas, os acordos entre chefes, como os líderes tradicionais são eleitos pela população, como se articula o seu poder com o da administração oficial e também como isso se alterou lentamente ao longo da História e, subitamente, nos últimos meses.

Com efeito, os últimos Governos do país foram retirando prerrogativas ao líderes tribais. Impotente para resolver a actual crise, no entanto, Cartum pediu ajuda aos chefes tradicionais. Ajuda militar, em troca de mais poder político, administrativo e judicial. Um chefe tribal podia por exemplo, explica Elomba, condenar criminosos em penas até 4 anos, sem recurso a um tribunal estatal. A partir deste ano, esse limite passou a ser de 7 anos. "O Governo deu-nos esse direito, para enfrentar os novos eventos".

Depois convidam-nos a dormir ali, para que no dia seguinte possamos assistir a julgamentos e visitar as aldeias vizinhas, constatando como árabes e africanos vivem em harmonia. Aceitamos. Dormimos ao relento, com os assassinos, a ouvir os burros, as vacas, os cães, os pássaros, os mosquitos, e a sonhar com o filho de Fatma, empalado numa lança, e o de Rasha, que ia nascer para a morte, com Amuna, violada pelos janjawid, e o cérebro exposto da menina queimada, o cérebro viscoso, repelente, a funcionar, a pensar, e cérebro maravilhoso de Rogaia.

De manhã cedo começam os julgamentos. Um homem queixa-se de que um camelo lhe estragou as culturas. Depois de uma longa conversa entre os chefes das respectivas tribos, o culpado é condenado a uma pesada multa. Uma rapariga apedrejou um camelo; um homem armou uma zaragata. Resolvidos todos os crimes, saímos em missão. Quatro jipes em caravana, com os chefes e os guardas armados. Objectivo: aldeia de Brambram, onde há um mercado. Até lá, passamos por muitas manadas de vacas e varas de camelos, a pastar nas terras que estiveram cultivadas. Passamos por várias aldeias, todas vazias, algumas destruídas. Que aconteceu aqui? "Ouviram dizer que havia guerra, fugiram para os Campos de Deslocados", é a resposta. E ninguém mais toca no assunto. Todas são aldeias Fur, a maior tribo africana.

Mortada tem um olhar desesperado. Transformou-se noutro homem, em poucos dias. Já esqueceu o Canadá, quer ficar, para ajudar o seu povo, promete. De vez em quando, num murmúrio surdo, fala de Rasha, a grávida de Asseref. "Esqueci-me de dizer às médicas. Provavelmente o bebé morreu, e ela também, por minha causa".

Chegamos a Brambram. Os chefes Fur vêm receber-nos, cheios de deferência. Um enorme bode é morto ali mesmo, à punhalada, para oferecer de repasto aos visitantes. Elomba e Abunova, as jalabias imaculadas a contrastar grotescamente com os trapos imundos dos chefes africanos, sentam-se numa manta. Perguntam se há algum problema para resolverem. A resposta é não. Está tudo bem. Depois esperam que façamos a visita à aldeia.

Mal os vêem pelas costas, os chefes Fur desatam a contar tudo. São atacados por janjawid quase todos os dias, que os exortam a partir, com ameaças. Muitos homens foram mortos, mulheres violadas. A maioria da população já fugiu. No mercado não se vende nada, porque ninguém tem coragem de cultivar. As terras foram ocupadas pelos árabes.

Mostram-nos a escola fazia, sem professor há vários anos. A guarita onde havia polícias, também vazia. "Agora são eles que mandam", dizem, apontando na direcção de Elomba e Abunoba. "Estamos à mercê deles. Mandam os janjawid se desobedecermos. Têm um campo de treino aqui perto, em Taisha".

Terminada a visita, os líderes árabes devoram o bode, perante os olhares famintos de dezenas de crianças. No fim, quando só restam ossos, são autorizadas a servir-se. Isto é o Darfur. A harmonia entre árabes e africanos.

Mortada tem um olhar ausente, dir-se-ia estar louco. "Provavelmente o bebé morreu"... balbucia.

in Pública
17 de Outubro de 2004

quinta-feira, outubro 14, 2004

voz, violão e você

e já me ia esquecendo! quando falou sobre os músicos portugueses com quem tinha trabalho, o primeiro a ser mencionado foi o fausto. palavras para quê...

voz, violão e você

obviamente que fui ao concerto do chico césar... esperei pacientemente pelo terminus da bicha da bilheteira da fnac do chiado, onde me vi forçada a partilhar momentos com aquelas pessoas que anseiam por ir ver o cats ou a ivete sangalo. um dos tipos da bilheteira reservava-se apenas e somente para o pavilhão atlântico. fez um ar eficiente quando me perguntou "é para o pavilhão atlântico?". levantei os olhos do livro e abanei a cabeça. esperei pacientemente que a mãe moderna, que estava à minha frente a ser antendida por uma gerente qualquer da casa, chegasse à conclusão que nem em dezembro poderia levar o seu bebezinho de 21 meses a um espectáculo dedicado a pais e filhos. a certa altura, olhou para trás, para mim e esboçou um sorriso. não consigo ser como a minha irmã, que devolve amareladamente sorrisos forçados, daqueles que não chegam sequer aos cantos da boca e que nunca mostram os dentes. não sou. olhei para ela como se não existisse e voltei a debruçar-me no livro. por fim, a rapariga-gerente de clientes da fnac (grande sorte, não tem de usar aquele coletinho verde!), lá me atendeu. comprei dois bilhetes para a 1ª plateia e saí toda contente, descendo até ao rossio.

obviamente que o concerto foi pura e simplesmente magnífico. qual ramstein, qual stomp, qual anastasia (meu deus, estavam a dar panfletos anunciantes do concerto dessa gaja à porta do s. luiz! quando me apercebi do que tinha na mão, tive uma naúsea e fui de imediato deitar aquela nojeira no caixote do lixo. essa senhora, quando canta, parece que está a fazer força para fazer cocó), qual carapuças! "voz, violão e... você" dá o mote perfeito ao espectáculo, e é isso mesmo: o chico césar com os seus violões, a saltar e cantar, puxando pelo público.

obviamente que cantei todas as músicas que sabia, que bati palmas, que uivei como uma louca, de mãos em cone junto à boca, numa tentativa vã de ampliar o som. tanto uivei que o iodta que estava sentado à minha frente e a sua namoradinha desemxabida olharam-me de olhos arregalados. não sei porquê, acontece sempre isso. até parece que se incomoda alguém só por se soltar uns gritinhos histéricos e se cantar de voz alta...!

e, obviamente, a música que toca aqui ao lado foi escrita pelo chico césar para o rei da música brasileira, o roberto carlos (que, por sinal, nunca chegou a gravá-la... o idiota!). há quem lhe chame brega, ao rei e à música. sobre o rei, não me pronuncio; sobre a música também não. há muito que sou uma parola-brega assumida!

segunda-feira, outubro 11, 2004

só pensar em você

a música que toca aqui ao lado é dedicada porque...

...hoje é dia festa
cantam as nossas almas
para o menino manuueeeeel
uma salva de PALMAS!

(às vezes penso que tive cá uma sorte: fui-me apaixonar pelo homem mais lindo do mundo... e sou correspondida.
qual brad pitt, qual george clooney, qual keanu reeves, qual carapuças! o meu manelinho mete esses canastrões todos num chinelo!)

quarta-feira, setembro 29, 2004

é isso mesmo!

assumidamente plagiando papoila:

"Como é que eu ponho músicas (files que tenho em disco) on-line?"

merci!

espanto!

mas que merda de mensagem é essa aí em baixo?! já é a segunda vez que aparecem mensagens que não são minhas... será um hacker?

galáxia zé ramalho

Admirável gado novo

Vocês que fazem parte dessa massa
Que passa nos projetos do futuro
É duro tanto ter que caminhar
E dar muito mais do que receber
E ter que demonstrar sua coragem
À margem do que possa parecer
E ver que toda essa engrenagem
Já sente a ferrugem lhe comer
Eh! Oh! Oh! Vida de gado
Povo marcado eh! Povo feliz...

Lá fora faz um tempo confortável
A vigilância cuida do ¨normal¨
Os automóveis ouvem a notícia
Os homens a publicam no jornal
E correm através da madrugada
A única velhice que chegou
Demoram-se na beira da estrada
E passam a contar o que sobrou
Eh! Oh! Oh! Vida de gado
Povo marcado eh! Povo feliz.....

O povo foge da ignorância
Apesar de viver tão perto dela
E sonham com melhores tempos idos
Contemplam esta vida numa cela
Esperam nova possibilidade
De verem esse mundo se acabar
A arca de noé, o dirigível
Não voam nem se pode flutuar
Não voam nem se pode flutuar
Eh! Oh! Oh! Vida de gado<
Povo marcado eh! Povo feliz....

Zé Ramalho
(1980)

terça-feira, setembro 28, 2004

easy recipe for JOYfulness !21

you won 't need a special formula or " tricky " recipe to be comforted by the holy ghost ! he will always there BY YOUR SIDE ! he will never leave you ! you won 't need to travel to paris or train with a " gourmet " chef to find favor in his eyes ! you won 't need to spend a pretty penny to " purchase " any fine wines or cheeses ! you won 't need to wait until hunting season or take out a " butterfly net " to " capture

sexta-feira, setembro 24, 2004

mistério

o que é que aconteceu ao ganeshezinho aqui do lado? anda muito intermitente...

quinta-feira, setembro 23, 2004

as primeiras mulheres

Roma duvida da veracidade da notícia
Iraque: grupo radical anuncia ter assassinado as duas voluntárias italianas

Um grupo radical islâmico anunciou hoje ter assassinado as duas voluntárias italianas que foram sequestradas no Iraque no passado dia 7 de Setembro. O governo de Berlusconi e a ONG para a qual trabalhavam as duas jovens recusam-se, porém, a acreditar nesta notícia, que ainda não foi confirmada por fontes independentes.

O grupo que reivindicou o duplo assassinado, auto-denominado Organização Jihad, assegurou que matou as duas jovens depois de Itália não ter aceite as suas exigências de retirada das tropas do Iraque.Porém, o governo italiano e a Organização Não-Governamental Uma Ponte para Bagdad - para a qual trabalhavam as duas mulheres - têm dúvidas sobre a veracidade da notícia, posto que uma outra organização havia anunciado incialmente o rapto das voluntárias.

Por agora, as autoridades italianas mantêm a "máxima cautela" em relação a este anúncio, uma vez que o ministério dos Negócios Estrangeiros já fez saber que não dispõe de nenhum elemento que lhe permita confirmar a notícia.As duas italianas têm 29 anos e eram as duas únicas voluntárias da ONG em Bagdad.

estas duas raparigas têm a minha idade e faziam exactamente aquilo que sempre quis fazer. por estupidez, cobardia, preguiça nunca tentei seriamente trabalhar nesta área. admiro-as. invejo-as. ao menos fizeram alguma coisa de útil das suas vidas... eu não.

quarta-feira, setembro 22, 2004

ora digam-me lá...

... quem foi a puta que andou a dizer que a minha irmã é má mãe?

segunda-feira, setembro 20, 2004

bedel

substantivo masculino

empregado de uma universidade encarregado de marcar as faltas dos estudantes e dos professores;

(Do fr. ant. bedel, «id.», mod. bedeau, «sacristão», do frânc. *bidal, «oficial de justiça»)

esclarecida? já consegue esclarecer o menino-tubarão e a princesa-bruxinha? explique lá que bastou à tia xana consultar um dicionário...

olha-me este...

Saddam Hussein está "deprimido" e pediu "misericórdia", diz primeiro-ministro iraquiano

"Diz que os membros do seu regime actuaram por interesse geral e que o seu objectivo não era fazer mal".

é preciso ter lata!

domingo, setembro 19, 2004

quinta-feira, setembro 16, 2004

sim...

já pedi desculpa ao sr. calçado.

quarta-feira, setembro 15, 2004

sr. calçado

o sr. calçado partilha comigo a administração do condomínio desde maio. é o meu co-administrador. hoje, pela segunda vez, levantei-lhe a voz. estou angustiada desde então.

o sr. calçado é um velhote de mais de 70 anos, que teve uma trombose há uns tempos atrás. se já era meio tonto, pior ficou. os seus olhinhos pequeninos brilham na sua cara paralisada e arrasta as palavras que lentamente se descolam de uma boca meio-curva, meio-recta. de tudo faz uma grande confusão e raramente me consegue explicar as coisas. repete a mesma história três e quatro vezes em menos de 20 minutos. hoje acordei com a campainha da porta. levantei-me sabendo que do outro lado estaria o sr. calçado, ansioso por me entregar alguma papelada e falar sobre os problemas do prédio. espreitei pelo buraco da fechado. atravês do seu ângulo abaulado confirmei o meu temor. dei meia volta e, silenciosamente, verifiquei se o esquentador estava aceso. deixei-o do outro lado da porta e entrei no banho. enquanto isso, o telefone tocava e o telemóvel anunciava "1 chamada não atendida". já esquecida, resolvi apanhar a roupa que estava estendida, receosa que a chuva a apanhasse desprevenida. tremi quando ouvi uma voz arrastada saudar-me "bom dia d. susana!". falei-lhe pela janela. perguntei-lhe o que queria, recorri à minha expressão mais aflita e expliquei-lhe que não tinha tempo para falar com ele, que tinha de correr para apanhar o metro. enquanto mecanicamente apertava as molas e restituia a liberdade às calças, cuecas e lençois, ouvi-o "estou aqui há já uma hora." voltei a não lhe abrir a porta, a deixá-lo de fora do meu 6ºd, prometendo-lhe que falaria com ele mais tarde, depois do trabalho.

mais tarde, depois do trabalho, toquei repetidamente à campainha da porta. como sempre, recebeu-me com um sorriso naquela sua boca parada. passado uns minutos, em total desespero mas sem razão, levantava-lhe a voz. fiquei agustiada até agora. amanhã vou voltar a tocar à sua porta e dizer "desculpe, sr. calçado".

terça-feira, setembro 14, 2004

re-inventada

nunca comprei nenhum álbum da madonna. nunca fui fã mas sempre adorei a forma como se vestia em plenos anos 80: as cruzes, as rendas, as meias esburacadas, o sinal por cima do lábio, o cabelo apanhado numa fita, aquela sua voz esganiçada a cantar o borderline... a época desde oerotica até ao bed time stories nunca me fascinou por aí além. até que na índia, em goa, num quarto tipo deluxe de alcatifa vermelha de um hotel em calangute vi o teledisco do frozen.

mas hoje arrepiei-me quando a ouvi cantar o papa don't preach (stop loving daddy, i know, i'm keeping my baby). e rendi-me: amanhã vou à fnac comprar um álbum dela... um qualquer... desde que tenha o borderline, ou o papa don't preach, ou o material girl, ou o like a prayer (you know i'll take there), ou o la isla bonita, ou o get in to the groove, ou o live to tell (foi a época em que ela esteve casada com o sean penn)... tinha 11 anos... porra, estou a ficar velha.

sexta-feira, setembro 10, 2004

nova ordem

só alguém que melodramaticamente não percebe nada de música é que pode afirmar que New Order (sim, caps lock!) é uma merda.

esperem só eu entender-me aqui com esta coisa de meter umas músicas na barra do lado, que vocês já vêm o que é boa música!

Crystal

We're like crystal, we break easy
I'm a poor man, if you leave me
I'm applauded, then forgotten
It was summer, now it's autumn

I don't know what to say, you don't care anyway
I'm a man in a rage (just tell me what I've got to do),
with a girl I betrayed
Here comes love, it's like honey
You can't buy it with money, you're not alone anymore,
(whenever you're here with me),
You shock me to the core, you shock me to the core

We're like crystal, it's not easy
With your love, you could feed me
Every man, and every woman
Needs someone, So keep it coming
Keep it coming, keep it coming, keep it coming
Keep it coming, keep it coming, keep it coming
Keep it coming

I don't know what to say, you don't care anyway
I'm a man in a rage (just tell me what I've got to do),
with a girl I betrayed
Here comes love, it's like honey
You can't buy it with money, you're not alone anymore,
(whenever you're here with me),
You shock me to the core, you shock me to the core

Keep it coming, keep it coming, keep it coming
Keep it coming, keep it coming, keep it coming
Keep it coming, keep it coming, keep it coming

New Order (2001)

teste

este sistema de postar via net é uma grande merda!

terça-feira, setembro 07, 2004

sem-título (não me apetece pensar)

a minha irmã é tão melodramática...

na realidade, acabo por escrever muito para ela. mais para ela do que para o manel, por exemplo (esse nem sequer me lê...). e muito mais que para os meus amigos (já vou ser trucidada a próxima vez que encontrar uns quanto)s. diz ela, a minha mana, que sou seca. permite-se a leves doçuras via email, dizendo: "estou cheia de saudades tuas, minha parva, cretina". é assim, desta forma tão pungente, que me diz que me ama e que não consegue passar muito tempo sem mim. e depois ainda diz que eu sou seca... vá-se lá saber porquê...

quando iniciei este blog estava num período péssimo da minha vida. elegi esta forma para destilar veneno sobre um certo homem com quem tinha obrigatoriamente de conviver todos os dias úteis da semana. foi a minha catarse, o modo como expremia a minha frustração de um dia-a-dia vazio. esse homem já não está na minha vida... está longe e não deixo de sorrir sempre que penso que posso nunca mais o ver. também, acho que se o vir, lhe cuspo na cara e dou-lhe um pontapé nos tomates.

depois fui continuando a escrever. não sei muito bem porquê. a princípio por gosto, a determinada altura já por obrigação... a verdade é que não me resta muito tempo para me sentar em frente a este ecrã e divagar sobre a minha vida, esta minha vida normal, banal. mas agora, neste momento, confesso: escrevo com e por prazer. sabe-me bem...

sexta-feira, setembro 03, 2004

ou muito me engano...

... ou este blog está a chegar ao fim.

já não me apetece escrever, não tenho tempo nem paciência nem vontade. não quero bater nas teclas e pensar na pontuação, preocupar-me com a gramática e com a ortografia.

há já muito tempo que sinto isto.

como diria a catarina, não me apetece!

logo se vê...

ps - já alguém leu o post que a minha irmã escreveu sobre a madalena? está tão giro! estou inchada de orgulho, a babar por uma e por outra...

quarta-feira, setembro 01, 2004

não me sai da cabeça desde que voltei...

voltei, voltei
voltei de lá
ainda agora estava de férias
e agora já estou cá

vale mais um mês lá
do que um ano inteiro cá

(minha versão da famosa cantiga do dino meira)

terça-feira, agosto 31, 2004

ó caralho, então ela não me disse nada???

porra! então a minha irmã volta a escrever nos matraquilhos e ninguém me diz nada, porra? nem a própria???

estou tão estupefacta que nem sei se hei-de rir ou chorar...

é o que dá ser irmã de uma "inconstante, diletante, absurda", que ainda por cima diz que nunca será tia dos meus filhos...

decididamente... vou chorar!

a questão essencial

O estranho caso das leis iguais com práticas opostas
FERNANDA CÂNCIO

No turbilhão do debate sobre a vinda a Portugal do barco da Women on Waves, corre-se o risco de perder de vista a questão essencial. É esse o medo do médico e deputado do PSD Salvador Massano Cardoso. Este considera que, muito mais importante que discutir o problema do aborto a 12 milhas da costa é ter presente que milhares de portuguesas passam a outra fronteira do país para ir abortar a clínicas espanholas , que funcionam sob uma legislação idêntica à portuguesa. E pergunta: «Por que razão é que uma lei, sendo igual em Espanha e Portugal, tem consequências práticas tão distintas? Esse é o ponto nobre desta matéria, o ponto fulcral da discussão sobre o aborto».Para este social democrata, só há duas hipóteses. «Ou são os espanhóis que estão a abusar, ou é a nossa lei que não está a ser utilizada em toda a sua latitude. Não têm sido invocados os direitos que ela permite.» Porque, frisa, trata-se de saber se «a legislação em vigor em Portugal permite cobrir outras situações diferentes das que estão a ser cobertas». E não tem dúvidas sobre a resposta. «Pode! E uma das razões por que isso não sucede é a forma esporádica como isto é discutido.» O deputado lamenta que «sempre que se fala deste assunto se entre em ebulição, e em ebulição as pessoas não conseguem ser sensatas». Sensatez seria, para este clínico de Coimbra, fazer o que fazem os espanhóis, ou seja, admitir o aborto por motivos relacionados com o perigo para a saúde psíquica da mulher, o que naquele país correspondeu, na prática, a permitir o aborto «a pedido». «Há uma diferente interpretação: também podemos fazer recurso a esses aspectos, a nossa lei também o permite. A uma mulher que esteja grávida contrariada, isso pode causar-lhe danos psíquicos irreversíveis! Porque a saúde não é só a saúde física, há saúde psíquica e social!»Os motivos de uma tão radical diferença entre as interpretações portuguesa e espanhola da mesma lei prender-se-ão, para o médico, com «falta de coragem». Dos «sucessivos governos e principais partidos», incluindo o seu, dos médicos e da sociedade em geral. «Há uma certa passividade das pessoas: dá trabalho lutar...» Exemplifica com o facto de nunca se ter assistido, no País, a qualquer batalha legal sobre o assunto. «Que aconteceria se abrisse uma clínica de interrupção da gravidez, a funcionar como as espanholas, em Portugal? Numa primeira fase, uma espécie de terramoto. Teria de se recorrer aos tribunais, claro. Mas se isso sucedesse em meia dúzia de casos, acabar-se-ia por chegar à conclusão de que se estava dentro da legalidade». Certo é que ainda ninguém a tal se atreveu. Massano Cardoso imputa o facto «ao nível cultural dos portugueses». Também a «cultura médica» lhe merece reparo, a começar pela existência de um código deontológico que, ao «proibir o aborto», entra em contradição com a lei da República. O bastonário dos médicos, Germano de Sousa, admite que «o entendimento restritivo da lei é em grande parte imputável aos clínicos». E não nega ser a tal disposição do código - que já anunciou, no início do ano, dever ser alterada - a consubstanciação desse entendimento: «Nunca houve dentro da classe uma grande pressão para a modificação.» Alega até que «grande parte é objectora de consciência» mesmo se, no seu caso pessoal, frisa ser «completamente a favor das excepções previstas na lei». Mas a interpretação espanhola, mais lata na alegação de «ameaça à saúde psíquica» parece-lhe complicada: «é muito difícil demonstrar problemas de saúde psíquica.» Para Germano de Sousa, trata-se de perceber que «os médicos portugueses foram educados para respeitar a vida». Os espanhóis não? «Claro que sim... Mas eles são mais permissivos.»

in Diário de Notícias

sexta-feira, agosto 06, 2004

enfim...

FÉRIAS!

quarta-feira, agosto 04, 2004

a razão porque eu fui para jornalismo



sei todos os episódios de cor até à quinta ou sexta série.

não sou jornalista.

não sou loura.

não sou americana.

a vida dá muitas voltas...

terça-feira, agosto 03, 2004

a pior crise humanitária no mundo

"O Darfur é devastado desde Fevereiro de 2003 por uma guerra civil que opõe as forças da Frente Nacional Islâmica, ligada ao Governo de Omar Hassan Ahmad al-Bachir, ao Exército de Libertação do Povo Sudanês, que controla parcialmente três províncias do Sul do país. Al-Bachir chegou ao poder em Junho de 1989, por meio de um golpe militar. Com poderes ditatoriais, tentou impor a lei islâmica a todo o Sudão, mas teve um grande foco de resistência no Sul, onde há grande número de cristãos e animistas, que reclamam uma maior autonomia para a região.

Acredita-se que a repressão à rebelião no Sul e a fome que assola o país tenham causado a morte de quase dois milhões de pessoas desde o início da guerra.

Cerca de 1,2 milhões de pessoas foram privadas dos seus bens no Darfur, tendo 200 mil fugido para o Chade. O número de mortos no Darfur atingiu já os 50 mil, segundo Jan Egeland, secretário-geral adjunto da ONU para os Assuntos Humanitários. "

in Público on line

o que mais me choca é que já não me choca... sõa números demasiado brutais para sequer conseguir entender. ou por outra, seria toda a região da grande lisboa morta pela fome, violada pela guerra. este cenário está tão longe que, por mais que assistamos à tragédia em directo na tv, por mais que os jornais escrevam peças de última hora expondo os números da desgraça, não consigo pensar piedosamente mais de alguns segundos sobre estas pobres pessoas sem vida, sem existência, sem paz.

se algum dia o mundo for atingido por uma catástrofe sideral, são estas as pessoas que irão sobreviver e perpetuar a humanidade. eu não aguentaria um minuto num cenário destes. nem eu, nem ninguém do mundo dito civilizado, dito mais avançado, dito 1º mundo. não há vacina ou tecnologia possível que nos torne imunes ao inferno.

sexta-feira, julho 30, 2004

Amor e Sexo...

Amor é um livro - Sexo é esporte
Sexo é escolha - Amor é sorte
Amor é pensamento, teorema
Amor é novela - Sexo é cinema
Sexo é imaginação, fantasia
Amor é prosa - Sexo é poesia
O amor nos torna patéticos ´
Sexo é uma selva de epiléticos

Amor é cristão - Sexo é pagão
Amor é latifúndio - Sexo é invasão
Amor é divino - Sexo é animal
Amor é bossa nova - Sexo é carnaval

Amor é para sempre - Sexo também
Sexo é do bom - Amor é do bem
Amor sem sexo é amizade
Sexo sem amor é vontade
Amor é um - Sexo é dois
Sexo antes - Amor depois

Sexo vem dos outros e vai embora
Amor vem de nós e demora

... na visão clarividente da rita lee e dedicado à rita n.

parabéns, minha querida amiga!

quinta-feira, julho 29, 2004

sou fã assumida!



não há nada melhor para dançar!

sábado, julho 24, 2004

ALICE NO PAÍS DOS MATRAQUILHOS

Mãe for a (em que avenida?)
olhos que a perseguem, pagam, comem
pai dentro, lambendo a ferida
com que o desemprego marca um homem
e o irmão na caserna
puxando às armas brilhos
e Alice no café
habitante do país dos matraquilhos

Na classe dos repetentes
hoje vai haver mais uma falta
Alice cerra os dentes
vendo a bola que no ar ressalta
quer lá saber do exame
quer lá saber da escola
aguenta no arame
matraquilho nunca cai ao ir à bola

Alice no país dos matraquilhos é mais
do que no bairro em que vive tem-te-não-cais

Há também Leonor
libertada da prisão há meses
dizem que é por amor
que olha tanto por Alice, às vezes
pousa-lhe a mão na cara
protege-a de sarilhos
Alice nem repara
Viajou para o país dos matraquilhos

E o irmão na caserna
cambaleia entre a cerveja e a passa
tem a sargento à perna
o tal que compara a guerra à caça
faz tempo que descobre
que é um matraquilho mais
soldadinho de cobre
matraquilho no país dos generais

Alice no país dos matraquilhos é mais
do que no bairro em que vive tem-te-não-cais

Quando se cai na lama
ninguém pára p’ra nos levantar
Alice! o pai reclama
a tu mãe não veio p’ra jantar
e os insultos, noite fora
desfia-os em chorrilhos
Alice nunca chora
adormece no país dos matraquilhos

E a mãe no “bar do amor”
passa as horas na conversa mole
espera o seu protector
e que o seu corpo a ela enfim se cole
não é que não recorde
os que deixou em casa
mais eis que chega o Ford
e dentro vem o seu pavão de anel na asa

Alice no país dos matraquilhos é mais
do que no bairro em que vive tem-te-não-cais

Entra então no café
um rapaz de capacete em punho
fica-se ali de pé
escreve num papel um gatafunho
e a Alice lê, surpresa
frases que são rastilhos
“Como vai Sua Alteza
a rainha do país dos matraquilhos?”

“E tu, ainda és rei?
Será que voltaste em meu auxilio?”
“A bem dizer, já não sei
há tantos anos que ando no exilio…”
“Vamos a um desafio?”
“Atira tu primeiro”
“A vida está por um fio
para quem é deste bairro prisioneiro”

O café que ali houve
é uma loja com ares de modernice
e nunca ninguém mais soube
(a não ser a Leonor) da Alice
“Aqui vai, Leonor
a foto dos meus dois filhos
se reparares melhor
têm pinta assim, sei lá, de matraquilhos”

Alice no país dos matraquilhos é mais
do que no bairro em que vive tem-te-não-cais

Sérgio Godinho
(1989)

carlos paredes

"Não sou um homem de espectáculo. Sou alguém que fala com as pessoas através da guitarra."

matraquilhos

acabou-se.

quarta-feira, julho 21, 2004

ai portugal, não te deixes assim vestir...

Consulados Exigem Documento "Vexatório" para Conceder Visto de Entrada
Por JOSÉ PINTO DE SÁ

O processo de concessão de vistos de entrada nos consulados-gerais de Portugal nos países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP) há muito que suscita o descontentamento dos requerentes. Entre os documentos exigidos figura um termo de responsabilidade que já foi considerado "absurdo", "vexatório" e prejudicial ao bom relacionamento entre os povos.

Um cidadão dos PALOP que deseje deslocar-se a Portugal em visita turística deve apresentar, além do passaporte válido e da passagem aérea de ida e volta, um documento do seu local de trabalho comprovando que está empregado e que a autoridade patronal tem conhecimento que vai ausentar-se do país. Mas além destes procedimentos, não incomuns, tem ainda que anexar um termo de responsabilidade emitido por um cidadão português, acompanhado do atestado de residência deste, ambos com a assinatura reconhecida em notário.

Ainda assim, muitas pessoas queixam-se de que, depois de produzidos todos estes documentos, amiúde o visto é recusado sem motivo aparente. Só resta então apresentar um pedido de reapreciação do pedido de visto, com uma declaração garantindo que não pretende permanecer em Portugal e que tem familiares e emprego no seu país. Quaisquer explicações sobre uma eventual recusa de reapreciação são endossadas ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, em Lisboa.

A correr para o consulado-geral de Portugal em Maputo, na avenida Mao Tsé Tung, tem andado Sónia Chamba, moçambicana, casada e mãe de filhos, com emprego estável e registo criminal limpo. Durante dois anos juntou dinheiro para concretizar o sonho de umas férias em Portugal, incluindo uma saltada aos Açores. No continente, ficaria alojada em casa de uma prima cujo marido, cidadão português, se prontificou a redigir o termo de responsabilidade.

A 15 de Junho Sónia Chamba apresentou no consulado-geral todos os documentos exigidos, mas viu o seu pedido de visto indeferido. Quando procurou explicações, a funcionária disse-lhe apenas que o pedido fora recusado porque "a vinda a Portugal não tinha em vista a visita a nenhum familiar directo".

Sónia Chamba solicitou logo de seguida a reapreciação do seu pedido e o consulado informou-a que o processo seguiu para Lisboa, via fax, no dia 28 de Junho. No sentido de acompanhar o processo, o subscritor do termo de responsabilidade, José Mora Ramos, contactou o sector de vistos do MNE, em Lisboa, no dia 1 de Julho, mas foi informado que o pedido de reapreciação não chegara a Lisboa. Até ao fecho desta edição, ainda não obtivera resposta.

José Mora Ramos, investigador coordenador do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, não se conforma com todo este procedimento. Os seus protesto incidem primeiramente sobre o próprio termo de responsabilidade, cuja minuta reza: "Eu, (...), abaixo-assinado, de nacionalidade portuguesa, portador do BI (...) , declaro para os devidos efeitos que me responsabilizo pela estadia e alimentação de (...) (parente, amigo ou outro ), de nacionalidade (...) , residente em (...) , portador do passaporte (...) , durante o período até 90 dias em que tenciona permanecer em Portugal, bem como pelo seu repatriamento".

Mora Ramos entende que os termos do documento são "vexatórios para o cidadão moçambicano e absurdos para o cidadão português que o assina", como foi o seu caso. E refere que já teve que subscrever termos de responsabilidade semelhantes para "viabilizar" as férias em Portugal de outros amigos moçambicanos, incluindo professores universitários, empresários e até um dirigente da Federação Moçambicana de Futebol.

Conforme disse, actualmente "muitos moçambicanos que desejam vir a Portugal preferem fazer a sua entrada por outro país do espaço Schengen, para evitar o vexame" de ter que pedir a alguém que subscreva tal documento. José Mora Ramos, que visita frequentemente Moçambique, considera que a exigência do termo de responsabilidade causa "imenso mal estar" naquele país. Na sua opinião, "o efeito do dito papelote e a prática de relação" com os utentes negros no balcão consular em Maputo "sobrepõem-se a todas as manifestações públicas de boas relações entre países".

Revoltado, exprimiu o seu descontentamento numa carta ao secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros. "Não lhe reconheço, a si nem a ninguém dos seus serviços, o direito de recusar a entrada no meu país a uma amiga minha, a menos que para tal invoque razões de Estado e dessas razões me informe devidamente", escreveu José Mora Ramos àquele membro do governo. Aguarda resposta.

in Público

domingo, julho 18, 2004

sexta-feira, julho 16, 2004

foda-se!

Luís Nobre Guedes é o novo ministro do Ambiente
 
que merda é esta, ó caralho?
 
(numa situação destas, o recurso a este tipo de expressões é, na minha opinião, perfeitamente justificável... isto antes que comecem para aí a dizer que eu ando desbragada. eu não sou desbragada.  gosto mesmo é de dizer asneiras!)

casamento debaixo de chuva



juntamente com os amigos de alex e o segredos e mentiras, este é um dos meus filmes preferidos.

através dele consegui ver-me, pela primeira vez, noiva.

domingo, julho 11, 2004

é a primeira vez que vejo este gajo a dizer uma coisa decente...

José Lello critica "incontinência verbal" de Ana Gomes

ressaca

acho que continuo ressacada. de tudo: das quatro perguntas em duas horas e meia, dos apontamentos aflitos que li vezes sem conta; da tequilla do jantar, às vezes com sal, outras com limão, e finalmente sem nada; dos pulos ao som dos groove armada e dos taxi, da garrafa de cerveja que deixei cair no meio da pista; da boca seca, a saber a cartão e a vertigem dos movimentos repentinos, que o gurosan não curou; dos pães com presunto, queijo, fiambre, mortadela e manteiga, que completam a minha dieta de fim de semana, dos caracóis frios e moles de ontem à noite; até mesmo do dramatismo da voz da maria bethânia e dos episódios trágicos das minhas amigas.

terça-feira, junho 29, 2004

será que vai haver porrada?

BELÉM Opositores e apoiantes de Santana manifestam-se hoje

o mais ridículo de todo este processo são as pessoas que participam nestas manifestações. acreditarão eles que o presidente vai convocar eleições antecipadas só por causa dos seus cartazes e berros? que assim contribuem para a definição do futuro do país?

gostava era de saber quantos deles votaram nas últimas eleições...

sábado, junho 26, 2004

Hotel Polana - Vista geral dum dos mais conceituados hóteis de África



Queridos paizinhos,

Olá como estão, bons não é verdade? Eu estou muito muito bem embora tenha muitas saudades vossas. Esta cidade é muito bonita. Espero que os paizinhos tenham recibo um postal que lhes mandei de Angola pois aí estive uma hora. Também escrevi à maezinha uma carta, esta agora é para o paizinho. Depois escrevo-lhes uma carta.
Beijinhos da vossa filhinha,
Solange


passados cinco anos, nascia-lhe a segunda filha numa manhã libertária, num país recém-nascido, numa cidade dividada entre dois nomes.

enquanto lhe faziam o parto, a minha mãe ouvia os médicos e enfermeiras a entoar o hino da frelimo, o hino que marcava o início da vida de um país independente e fim das nossas vidas num regime há muito moribundo.

retornámos há 29 anos, para nunca mais voltar. se portugal é o meu país e a índia as minhas origens, moçambique é a minha terra. nascemos quase ao mesmo tempo, apenas com horas de diferença.

um abraço...

... para ti também, querida rita.

emocionaste-me, porra!

(estou, qual bonga, com a lágrima ao canto do olho! snif, snif...)

como?

durão barroso em bruxelas e santana lopes primeiro-ministro?



aconteceu aqui qualquer coisa que me passou completamente ao lado...

sábado, junho 19, 2004

dedicatória



em brasília, na véspera da partida, alguém me ofereceu a biografia do chico buarque. hoje, no dia do seu aniversário, espantada redescobri a dedicatória.

"para minha querida susana. um pouco de alguém que soube falar tão bem sobre o amor"

quinta-feira, junho 17, 2004

ganesh musicado

agora sim. um blog com música. com chico césar. com a mamã áfrica.

agradeço ao alexandre, à papoila, ao rui e à fraila, que me deram as explicações necessárias.

... a mana vai morrer de inveja.

domingo, junho 13, 2004

a surpresa

então não é que descobri, ali mesmo, no momento em que exercia o meu dever de cidadã, que existe o movimento pelo doente e o partido humanista? quase votei neles pela originalidade da denominação.

embora, em termos de originalidade, a vitória pertença sempre à nova democracia. afinal, associar os conceitos "novo" e "democracia" ao manuel monteiro é do mais original que pode haver...

sexta-feira, junho 11, 2004

noticia

Polícia municipal impede arraiais a indivíduos de «tez negra»

Numa carta, em três pontos, enviada à Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural, Almeida Rodrigues justifica a sua recusa para a realização dos arraiais populares na Rua da Mouraria e no Largo do Intendente.

O responsável da polícia diz que as áreas são zonas de risco e que os arraiais poderiam potenciar situações perigosas, mas numa tentativa de ser mais explícito, o comandante da Polícia Municipal afirma que os «habituais frequentadores da zona são na sua maioria de tez negro, toxicodependentes e pessoas que se prostituem. Estes indivíduos trazem consigo e põem em prática os usos e costumes de origem».

Almeida Rodrigues entende que a situação descrita aumentou a promiscuidade naquela zona da cidade e adianta que «estes indivíduos, constituindo-se em grupo, tiram daí a força, que conjugada com a sua formação e princípios étnicos que os levam a tomar atitudes de inconformidade a qualquer ordem dos agentes de serviço».

A carta diz ainda que estas situações já levaram a casos de conflitos e de detenções.

Subintende refuta ideia de racismo

A TSF pediu ao próprio Almeida Rodrigues para explicar os argumentos de recusa aos arraiais populares, que referiu que já «houve vários problemas, com os nossos agentes a serem agredidos, por elementos desse género, das pessoas que circulam nesses locais».

Sobre a necessidade de a carta à Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural referir que a zona é frequentada por indivíduos de «tez negra», o responsável policial diz que «não há relevância. Foi só dizer que tipo de pessoas poderão circular e trazer algum problema na área».

«Se continuarmos só com música africana, vai chamar mais africanos para esse local, logo vai trazer mais problemas, em princípio. Poderá trazer mais problemas», continuou.

Ao ser questionado sobre se esta não seria uma abordagem racista ou xenófoba ao problema, Almeida Rodrigues sublinhou que refuta «qualquer ideia conexa a essa situação. Não me revejo numa situação dessas».

TSF

este cabrão deve ser amigo da outra. que lhe vá fazer companhia...


quinta-feira, junho 10, 2004

confissão

pois é: adoro a alanis morissette.

mais: emociona-me, identifico-me.

a minha irmã acha-me uma pirosa e diz que lhe parece uma gata com o cio.

sendo assim confesso: sou uma pirosa. assumida!

bb

Brigitte Bardot condenada ao pagamento de multa por declarações racistas


devia era ser sodomizada por todos os animalzinhos que defende.

se calhar até gostava:prefere os animais às pessoas. grande cabra!

terça-feira, junho 08, 2004

a importância de ser o testículo direito

descíamos os três por uma rua do bairro alto, numa noite quase de despedida: eu de partida para o brasil, a rita q. rumo a itália. as suas duas amigas desertavam, deixavam-no só, para trás, com bebedeiras prometidas aos fins de semana com outros amigos, coisa de interesse, com umas gajas à mistura, quem sabe, mas no fundo, no fundo, sempre suspirando por uma paixão. a certa altura exclamou:

- vocês não podem ir embora! caramba... vocês são os meus testículos, porra!

voltamo-nos as duas para trás, gargalhamos qualquer coisa, e de imediato ficou decidido: pelos discursos políticos, eu seria o testículo da direita, a rita seria o da esquerda.

para as pessoas que não nos conhecem, pode parecer estranho que nos tenha agradado sermos os testículos de um homem. no caso do sérgio, ambas sabíamos que isso era a sua grande declaração de amizade. sim, porque também as há, as declarações de amizade. esta foi a declaração de amizade mais supreendente que ouvi. e que perdura no tempo.

é um prazer ser o seu testículo direito (sem conotações sexuais, por favor!). ou seja, é um prazer ser sua amiga.

se sou o seu testículo direito, sem dúvida ele é o nosso filho adoptivo.

crava-nos jantares e livros. liga-nos às 10 da noite para saber por onde andamos. esquece-se quase sempre que nunca temos cerveja em casa. descalça os sapatos na sala.

- tenho frio nos pés, porra!

respondo:

- tens as meias rotas...!

espoja-se no sofá, na rede, come-nos os queijos e os enchidos (é um alarve...). quando fazemos um acepipe, telefono-lhe:

- hoje fiz sopa de cebola gratinada com queijo, queres vir jantar?

- já que insistem...!

é desbocado, bonito e faz-nos acordar cedo num domingo chuvoso para o ir esperar à meta da meia maratona de lisboa.

não ouve música de qualquer espécie: é capaz de andar quilómetros com o rádio do carro a emitir apenas ruído (como é que isto é possível?).

despenteia-me como se eu fosse um puto (à terceira vez começa a enervar-me).

falamos de como e quando fazer cócó nas viagens: do alto da sua sabedoria e vasta experiência, explica que o macdonald´s garante sempre um serviço higiénico de qualidade e é sempre o primeiro a levantar o selo que comprova a limpeza imaculada das sanitas dos aviões.

já passei de carro pela rotunda do relógio, a ouvir o hino do ppd-psd aos altos berros e com ele de punho erguido (que contra-senso!) a gritar cavaco! cavaco! não estavamos sequer em período eleitoral.

casa-se no próximo mês, tem 29 anos e é um pornófilo assumido. prefere o sexy hot ao canal playboy (isto diz tudo). e por favor, não vamos discorrer aqui sobre os seus momentos de qualidade consigo próprio...

exigiu-me uma ode neste singelo blog quando me ofertou desinteressadamente um livro sobre palácios de goa.

o que ele não sabe é que não precisava de me oferecer o dito livro (que prontamente aceitei): já tinha uma ode prometida desde que nos conhecemos numas férias de verão, há 13 anos atrás, nas bancadas do campo de futebol da portela de sacavém.

domingo, junho 06, 2004

lagarto, lagarto, lagarto

qual a probabilidade de ambos os veículos de um casal se estragarem no espaço de uma hora?

hoje à tarde?

100%.

isso mesmo: numa hora partiu-se a correia da ventoinha de um, descolou-se o vidro do pendura e avariou-se o rádio do outro.

temos de ir à bruxa!

domingo, maio 30, 2004

diálogo

homem - sabes qual é a parte favorita do meu dia?
mulher- não.
homem - é quando venho para a cama contigo e me anicho e enrosco em ti e adormeço ao teu lado.
mulher - (sorri)

pobre d. sebastião...

Os Demónios de Alcácer Quibir

O D. Sebastião foi para Alcácer Quibir
de lança na mão, a investir, a investir,
com o cavalo atulhado de livros de história
e guitarras de fado para cantar vitória.

O D. Sebastião já tinha hipotecado
toda a nação por dez reis de mel coado
para comprar soldados, lanças, armaduras,
para comprar o V das vitórias futuras.

O D. Sebastião era um belo pedante
foi mandar vir para uma terra distante
pôs-se a discursar: isto aqui é só meu
vamos lá trabalhar que quem manda sou eu.

Mas o mouro é que conhecia o deserto
de trás para diante e de longe e de perto
o mouro é que sabia que o deserto queima e abrasa
o mouro é que jogava em casa.

E o D. Sebastião levou tantas na pinha
que ao voltar cá encontrou a vizinha
espanhola sentada na cama, deitada no trono
e o país mudado de dono.

E o D. Sebastião acabou na moirama
um bebé chorão sem regaço nem mama
a beber, a contar tim por tim tim
a explicar, a morrer, sim, mas devagar

E apanhou tal dose do tal nevoeiro
que a tuberculose o mandou para o galheiro
fez-se um funeral com princesas e reis
e etcetera e tal, Viva Portugal.


claro que esta letra magnífica é do sérgio godinho, do seu albúm De Pequenino é que se Torce o Destino, de 1972, se não me falha a memória...

é nestas alturas que dou graças a deus por ser portuguesa e poder entender estas letras... imaginem se fosse americana, ou húngara, ou chinesa? que tipo de mulher seria sem o sergio godinho, o fausto, o zeca, o chico buarque, o caetano, e todos os outros...???

porra! não entender nada da desfolhada portuguesa? não conhecer simone de oliveira???

... que pesadelo!

telepatia

quem não se lembra da lara li a cantar telepatia?

Telepatia
Silêncio, Calma
Feitiçaria
Da tua alma

Passo a passo
Sem ter medo
Abrimos, soltámos
O nosso segredo

E a sorrir
Devorámos o mundo
Num abraço
Tão profundo

Telepatia
Sem contratempo
Deixei-te um dia
Num desalento
E eu sonhava
Existia
Pra sempre, pra sempre
Foi pura poesia

Sem pensar
Não vi-te, passavas
Pelo meu corpo
Não ficavas

Telepatia
Minha querida, eu soube sempre
Eu já sabia que te ia conhecer
Fiz tanta força
Para isto acontecer
És tão bonita meu amor
Eu não te queria perder
Já sei, adivinho
O que estás a pensar
Vim do outro lado do mar,
Talvez outro dia volte, não sei
Mas penso em ti, acredita
Adivinhei-te em segundos
Quando jurámos eternidade


E a sorrir
Devorámos o mundo
Num abraço
Tão profundo

Telepatia
Silêncio, Calma
Feitiçaria
Da tua alma


a parte falada é do melhor... nunca ouvi voz menos sedutora.

ao contrário da lara li...

sábado, maio 29, 2004

fama

se soubesse pôr música no blog (continuo sem saber), hoje poria a música do fame, cantada pela irene cara e que nos prendia à televisão nas tardes de fim de semana.




eramos fãs, eu e a mana...

incompreensível

como é que os trovante eram uma banda única, maravilhosa, maviosa, que me arrepia os cabelinhos da nuca. eu adoro trovante....

agora...!

aquele luís represas, com o seu ar macilento e as musiquinhas com o cubano, casado com aquela margarida, ar artificial de flor de plástico enfiada numa jarra barata...

incompreensível: como gosto tanto de trovante e abomino de tal forma o luís represas!

quarta-feira, maio 26, 2004

ridícula

é assim que me sinto: ridícula.

ridícula?!

ridícula não!

estúpida!

eu sou é uma grande estúpida!!!

alguém por favor me dê um estalo?! eu bem que o mereço!

segunda-feira, maio 24, 2004

uma notícia importante

A peste negra pode estar só adormecida

A peste negra, que matou 23 milhões de pessoas na Idade Média, pode estar apenas adormecida e poderá atacar de novo, segundo os investigadores. A explicação foi baseada na teoria de que a peste não foi provocada pela peste bubónica, mas por um outro vírus como se pode ler no novo livro de Christopher Duncan e Susan Scott, da Universidade de Liverpool. Actualmente, a doença afecta entre mil e três mil pessoas por ano. No entanto, detectada prematuramente, tem cura.

Diário de Notícias

sábado, maio 22, 2004

madalena?

he lá, esse cd não é o meu???

mana?!

espero que a capa não esteja partida...

(ninguém pode imaginar o estado em que ela devolve as coisas...

quando devolve.)

sábado, maio 15, 2004

aquele homenzinho de branco...

Vaticano desaconselha casamento de católicas com muçulmanos

O Vaticano desaconselhou hoje os casamentos entre as fiéis católicas e muçulmanos e apelou a estes para terem mais respeito pelos direitos humanos, igualdade entre sexos e democracia. A "Erga Migrantes Caritas Cristi" (A Caridade de Cristo para com os Imigrantes) foi apresentada hoje pelo cardeal japonês Stephen Fumio Hamao.

A carta, com 60 páginas, foi redigida pelo Conselho para a Pastoral dos Emigrados, um dos "ministérios" do Vaticano presidido por Fumio Hamao.

O documento, assinado pelo Papa João Paulo II, salienta que as mulheres são "o membro menos protegido da família muçulmana" e justifica o seu conselho com a "amarga experiência" que as católicas ocidentais tiveram com maridos muçulmanos, especialmente quando casaram fora do mundo islâmico e depois foram para o seu país de origem.

Segundo o documento, quando uma católica e um muçulmano se querem casar, "a experiência ensina que é necessária uma preparação especial, cuidada e profunda" antes de se dar o passo.

O Vaticano apela às mães que batizem os seus filhos e que os criem na religião católica.

A carta apela aos muçulmanos para "terem mais respeito pelas liberdades fundamentais, pelos direitos invioláveis do ser humano, igualdade de sexos e democracia".

O documento, que pretende ser uma resposta da Igreja ao actual movimento migratório, refere-se aos problemas colocados pelas migrações e apela à integração dos imigrantes. "O imigrante deve ser respeitado enquanto tal, com a sua cultura e religião", insiste Fumio Hamao.

"A emigração comporta direitos e deveres. O primeiro dos direitos é o de o imigrante contribuir para o desenvolvimento do seu país de acolhimento".

in Público

sim senhora, está-se mesmo a ver que o nosso amigo voitíla e comparsas aprenderam bem os ensinamentos de cristo que, a esta altura, deve estar a apaziguar o pai - "perdoai-lhes, eles não sabem o que dizem" - , mas cheio de vontade de dar um valente sanafão àquele homenzinho de branco.

eu estou. dava-lhe logo um piparote no nariz e apresentava-o à rita q. que, com o seu sadio italiano, lhe explicaria em três tempos (e de dedo em riste) duas ou três coisas sobre generalização abusiva dos termos. engolia logo a expressão " amarga experiência", metia o rabinho entre as pernas e passava a limitar-se aos passeios pelo vaticano no seu papamóvel... e nunca mais abriria a boca para dizer este tipo de disparates, e as expressões tolerância e reconhecimento continuariam a fazer sentido na religião católica.

o meu blog-sonho de consumo

o que é que se passa?? toda a gente mete música nos blogs? há um blog... (deixem-me lá qual é...) que começa logo a tocar música quando se abre o dito... aqui, vejam lá! não... ouçam lá!

como é que isto se faz?

imaginem-me se eu soubesse disto hoje? era já aqui o "navegar, navegar" do meu precioso fausto...

"ó minha cana verde
mergulhar no teu corpo
entre quatro paredes
"

sexta-feira, maio 14, 2004

fausto

este também deve ter vendido a alma ao diabo... para mim, é o melhor músico do mundo. não tenho dúvidas abslutamente nenhumas disso.

bendito cantor maldito.

terça-feira, maio 11, 2004

confesso.

gosto de ler os blogs dos outros.

mas não tenho a mínima pachorra para comentar os blogs dos outros no meu blog.

tenho a sensação que muitos bloguistas escrevem mais de 70% dos seus textos sobre os blogs dos outros...

bleagh!

o rio de janeiro continua lindo...

Militares vão garantir segurança dos cariocas

Nos próximos dias, o Rio de Janeiro ficará com um ar mais bélico, algo parecido com Bogotá (Colômbia) ou Beirute (Líbano). Para conter a violência dos bandidos e traficantes de drogas, o Exército irá patrulhar as vias mais importantes da cidade. Serão utilizados tanques na «Linha Vermelha», que liga o Aeroporto Internacional ao centro, e na «Linha Amarela», que dá acesso a subúrbios.

Esta acção prova a insuficiência da polícia local para conter os actos de banditismo na cidade, como a disputa entre bandos durante a última Semana Santa, que fez 12 mortos, dois deles polícias.

Os militares - por falta de experiência em áreas urbanas - não deverão entrar nas favelas, mas deverão cercá-las de forma a impedir o tráfico de droga e a violência dos bandidos. Estes têm utilizado, nos últimos tempos, o sistema de organizar um grupo de veículos - «bonde do mal» - para ataques ou roubos. Com a presença do Exército, isso deverá ser interrompido.

De início, deverão ser utilizados 2000 homens da brigada de para-quedistas e, possivelmente, outros 2000 transferidos do interior do país, que estão a ser treinados para acções urbanas.

Segundo a Constituição, não cabe às Forças Armadas velar pela segurança interna do país, mas cada dia torna-se mais óbvio que terão de ser elas a agir, em benefício da segurança nacional.

Resultados de sondagens revelam que 62 por cento dos habitantes do Rio aprovam a participação dos militares no patrulhamento das ruas. Por outro lado, não há dúvidas de que o exército tem sido ineficaz na contenção da entrada de armas e drogas no País. O Brasil produz maconha, mas a cocaína vem de países como Bolívia, Paraguai e Colômbia e entra pelas fronteiras terrestres, insuficientemente patrulhadas pelo exército, que também não consegue impedir a entrada de armas contrabandeadas.

Peritos têm procurado descobrir as causas para a crescente violência das cidades brasileiras, em especial no Rio. Segundo dados recolhidos, por falta dum programa habitacional consistente, só resta aos pobres morar em favelas. É assustador para os brasileiros saberem que, de 1991 a 2000, a população nacional aumentou à média anual de 1,6 por cento e o número de habitantes das favelas subiu 4,32 por cento ao ano, o que prova que a população das favelas está a aumentar sem controlo por falta de recursos e de casas decentes para os pobres.

A economista Tânia Araújo considera que a situação decorre do facto de os governos terem dado prioridade ao pagamento das dívidas interna e externa do país e, em consequência, escassearem os recursos para o auxílio à pobreza, a criação de empregos, saneamento básico, habitação e saúde.

Diário de Notícias

as grandes novidades noticiadas pelo jornal público

caros amigos e amigas (sou, obviamente, uma mulher politicamente correcto por isso nunca esqueço as questões de género), surpreendam-se com as situações nunca imaginadas neste país e neste mundo!

Centros de Saúde da Região de Lisboa Funcionam em Más Condições

Cursos Tecnológicos e Profissionais Têm Maior Percentagem de Empregabilidade

Dinheiro Gasto em Três Dias com Armamento Chegava para Educar Crianças-trabalhadoras

PCP Contra Privatização da Galp

Maioria Acredita Que o Euro Não Compensa

sim senhora...! estou pasma. nunca pensei que estas coisas fossem possíveis.

nunca fui ao centro de saúde de sacavém, alojado num prédio habitacional, com péssimos acessos, onde os velhos têm de subir dois andares para levar uma injecção;

é uma evidência que o desemprego nunca atinge os licenciados e afins;

trabalho infantil? orçamentos brutais para armamento? que disparate!;

o pcp não é um partido que promove o mercado livre e o capitalismo selvagem?;

o euro vai ser um evento em grande: muito turismo, adeptos cheios de vontade de gastar dinheiro e o país cheio de estádios que poderão ser rentabilizados pelo estado.

sábado, maio 08, 2004

mila

sms recebida às 11.37 da manhã de sábado, enquanto a mila entrava por terras de espanha, em direcção a madrid.

"bom teria sido ontem descer à rua em vez de subirmos sozinhos a grande rampa, mas hoje na manhã ainda levamos o cravo na boca. bjs às manas + bonitas do mundo"

terça-feira, maio 04, 2004

...e nada reter

às vezes gostava de saber o que me passa pela cabeça para começar a cozinhar perto das 11 da noite. o goulash, especialidade do manel, continuar a borbulhar na panela, e espalha um odor apimentado, delicioso que se mistura com o cheiro agudo da tinta.

ainda não jantei. tenho de continuar o estudo. estou cheia de saudades do manel. estraguei o meu mini-aspirador. rebocaram-me o carro do parque de estacionamento do meu emprego quinta feira passada.

que merda...

domingo, maio 02, 2004

petisco

ando cá com umas ganas de comer caracóis...!

quinta-feira, abril 29, 2004

vida paralela

fez-me olhar noutra direcção. saí do brasil com a mala repleta de cd's. ouvi tudo, comprei o que pude, mas a grande descoberta foi legião urbana. rock brasileiro, cantado por um voz profunda, colocada mas doce. o renato russo deixa-me em puro extâse, esse homem feio, de brasília, da minha cidade de adopção, do sítio onde me senti mais livre e mais só. o período mais feliz da minha vida, embora coxo pela falta dos meus irmãos. em brasília sentia-me outra. pela primeira senti-me uma mulher, a sério, com M. bonita, leve, despreocupada, inteligente, competente, admirada, amada. incondicionalmente amada. a roçar a idolatria. em brasília apaixonei-me de forma descontrolada, acesa, adolescente. quis casar. regressei com promessas de união eterna. na despedida pensei que ia morrer, morrer de amor. assustei todos os meus amigos: uns olhavam-me com com censura, perplexidade, gozo, é tonta, coitada, achas mesmo que ela vai casar com o tipo? outros tentavam chamar-me à razão com falinhas mansas e discursos sérios, mas vais-te mesmo casar? mas tens a certeza? conhecem-se há tão pouco tempo... pensa bem nisso!

não casei. gastei uma pipa de massa em telefonemas e dois meses depois já andava a suspirar por outro. desapaixonei-me com um sonho e um telefonema. alguma coisa caiu, assim, repentinamente, sem eu dar por nada. o grande amor passou. na verdade... nunca chegou.

mas aquele rapaz triste, de olhos doces, barba rala, que tinha estudado história, órfão de pais e de amor, vem-me sempre à cabeça quando ouço legião urbana. e penso em brasília. e acho que fui estúpida. e que nunca devia ter voltado. e que aqui me vou perdendo aos poucos, perdendo de uma vida possível, mais apetecível mas mais amarga.

por isso, quando ponho os legião urbana a tocar, entro num estado de euforia interior que ninguém percebe, que não deixo transparecer, numa dor que me dá um prazer mágico, quase embriaguez. o peito parece insuflar-se como um balão e tudo se torna mais intenso: o cheiro, as cores, as pessoas, a minha vida paralela, que parece ter continuado no planalto central, no distrito federal, no plano piloto. e que me assombra... às vezes.


Índios
Renato Russo

Quem me dera, ao menos uma vez
Ter de volta todo ouro que entreguei
A quem conseguiu me convencer
Que era prova de amizade
Se alguém levasse embora até o que eu não tinha

Quem me dera, ao menos uma vez
Esquecer que acreditei que era por brincadeira
Que se cortava sempre um pano-de-chão
De linho nobre e pura seda

Quem me dera, ao menos uma vez
Explicar o que ninguém consegue entender
Que o que aconteceu ainda está por vir
E o futuro não é mais como era antigamente

Quem me dera, ao menos uma vez
Provar que quem tem mais do que precisa ter
Quase sempre se convence que não tem o bastante
E fala demais por não ter nada a dizer

Quem me dera, ao menos uma vez
Que o mais simples fosse visto como o mais importante
Mas nos deram espelhos
E vimos um mundo doente

Quem me dera, ao menos uma vez
Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
E esse mesmo Deus foi morto por vocês
É só maldade então, deixar um Deus tão triste

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda - assim pude trazer você de volta pra mim
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim
E é só você que tem a cura para o meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi

Quem me dera, ao menos uma vez
Acreditar por um instante em tudo que existe
E acreditar que o mundo é perfeito
E que todas as pessoas são felizes

Quem me dera, ao menos uma vez
Fazer com que o mundo saiba que seu nome
Está em tudo e mesmo assim
Ninguém lhe diz ao menos obrigado

Quem me dera, ao menos uma vez
Como a mais bela tribo, dos mais belos índios
Não ser atacado por ser inocente

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda - assim pude trazer você de volta pra mim
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim
E é só você que tem a cura para o meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi

Nos deram espelhos e vimos um mundo doente
Tentei chorar e não consegui

"Dois"
(1986)

segunda-feira, abril 26, 2004

moscovo

os meus pais souberam do 25 abril numa festa em moçambique. conta o meu irmão que, de repente, a festa se tornou silenciosa e sorumbática. o meu pai ficou sério. a minha mãe chorava sentada a uma mesa, preocupada com a minha tia, sem perceber o verdadeiro significado daquele golpe militar, que em poucas horas derrubara um regime de décadas.

por essa altura, a minha tia trabalhava em s. josé, enfermeira bonita e competente, um pouco triste por uma história de desamor e engano. nesse dia cumpriu o horário até ao fim, e depois entregou-se às ruas de lisboa em festa, vermelhas e brancas, como os cravos que distribuiam nas ruas. a minha tia comunista, que em 1978 foi à união soviética em viagem e de lá trouxe as imagens da neve e do comunismo que marcou a nossa infância. as tardes de fim de semana eram passadas em cima da cama dela, a olhar as fotografias de uma moscovo branca e panfletária, cheia de manisfestações de verdadeiros cidadãos soviéticos crentes no sistema. a neve branca, que eu e a minha irmã nunca pisáramos, tornava o vermelho das bandeiras mais vivo e as caras do lenine e do estaline mais impressionantes. os postais dos palácios de leningrado e os slides das imponentes estações de metro moscovitas preencheram o nosso imaginário infantil, lado a lado com as desventuras da heidi, a vida despreocupada do franjinhas e as invenções do professor baltasar. e a minha tia ali, no meio do branco e do vermelho, de lenço vermelho com bolas pretas, ao lado da conceição anselmo, a sorrir para a fotografia, também ela crente no comunismo, feliz, bonita, competente, magrinha, mas sempre marcada por uma história de desamor e engano.

domingo, abril 25, 2004

0 DIA INCOMUM DE UM EXILADO
VIVENDO ENTÃO EM VANCOUVER

Sérgio Godinho

Era muito longe, ou seja
no Pacífico
Notícias de jornal, confusas:
tanques ocupam a praça central
de Lisboa
Digo-me: mal eles sabem que se chama
Rossio mas digo-me também: se é a revolução
daquele do monóculo
pouco tenho a esperar
Depois espanto-me: como é possível
que libertem assim
sem mais nem menos
os presos políticos
e prometam a autodeterminação
de colónias economicamente tão preciosas?
0 povo saiu à rua e foi isso
que mudou tudo, explicam-me então
pelo telefone.

No dia em que abalei
para aqui ficar
deixei sem remorsos:
a minha horta
cujos legumes tantas vezes protegi
um trabalho que tanto suspeitava amar
e os amigos que, querendo ser generosos,
me disseram:

«Vai, vais ver que não te arrependes»

Esquece-se muita coisa...
a força de ver caras novas
não sei se me lembro das antigas
embora as veja tão bonitas
e disponíveis
na memória
e por vezes em fotografia.

(Inédito)

PoemAbril
Antologia de autores organizada por
Carlos Loures e Manuel Simões
Fora do Texto - Cooperativa Editorial de Coimbra, CRL.
Coimbra, 1994



25 de Abril - 30 anos

quinta-feira, abril 22, 2004

de mãos e pés atados

é assim que me sinto.

impotente. de mãos, pés atados. a garganta seca de angústia. sem palavras. pequena.

não, hoje não sou feliz...

terça-feira, abril 20, 2004

o melhor concerto da minha vida

o melhor concerto da minha vida, foi o de sexta-feira passada, dos tindersticks. porquê? porque fui com os meus irmãos e com o manel, as três pessoas que mais gosto no mundo (sem contar com os meus sobrinhos, claro!). é parolo mas é verdade! para mim, há momentos que valem muito mais do que o gajo que está a contorcer-se em palco.

entre o meu irmão de olhos fechados, a bater palmas logo no final das músicas, a minha irmã ao longe, sentada como se estivesse numa chaise longue de um paquete americano e o manel a balançar-se de mãozinhas nos bolsos, vivi dos momentos mais felizes da minha vida. é parolo, eu sei... mas é verdade!

sou viciada nestas três pessoas: no beto, na mana e no manel. e sou feliz assim... mais feliz que a maioria das pessoas que me lêem.

segunda-feira, abril 12, 2004

tindersticks

Buried Bones

I could take all the craziness out of you
That's what I loved you for
Take away all the oranges, greens and blues
That's what I loved you for
Take a look at me
You think it really could be that easy?
I mean, take a look at me
You think it really could be that easy for you?
I know about guys, I know where they live
And you're just the same
The ones that matter fight against themselves
But it's so hard to change
Hey, I could love you
Take all that love away from you
Hey, I could love you
Put you in this box I've made for two
So you could take all this craziness out of me
That's what you love me for
Well, I don't mean to laugh
But if you know all this
You must be halfway there
Well, like that dress tonight, you won't know as it falls from you
Turn around and it's winter, darling
Look in the mirror and it won't be you
So you're an old, old dog
You've been around the block
So many times
And it's the same old turns
Same old feelings straight down the line
Yeah, I can love you
Grab that leash and drag you to a place you'd never know
I know where my bones are buried
May take me a while, but I'd find my way home

"Curtains"
(1997)

não. não consigo decidir qual é a minha música favorita dos tindersticks. pode ser esta, a anterior, a próxima, todas as que este homem canta...




cumprido

retirei aqui do lado o link da rapariga que também bloga. espero que esteja satisfeita...

quarta-feira, abril 07, 2004

casais



frida e diego                              ana e reinaldo                           susana e manel

segunda-feira, abril 05, 2004

hoje, em especial, hoje...

queria ser mais escura. que a minha pele adoptasse um tom mais carregado, castanho. que o meu cabelo se alisasse e tomasse um tom negro. que os meus olhos se abrissem, que as pestanas alongassem. que a carne por debaixo das minhas unhas se colorisse de laranja.

hoje, em especial hoje (mais que os outros dias), queria ser mais escura, mais indiana, mais asiática, mais africana - escura, escura, escura. preta. como o meu pai.

terça-feira, março 30, 2004

mandamentos

Choose life.

Choose a job.

Choose a career.

Choose a family.

Choose a fucking big television.

Choose washing machines, cars, compact disc players, and electrical tin openers.

Choose good health, low cholesterol and dental insurance.

Choose fixed-interest mortgage repayments.

Choose a starter home.

Choose your friends.

Choose leisure wear and matching luggage.

Choose a three piece suite on hire purchase in a range of fucking fabrics.

Choose DIY and wondering who you are on a Sunday morning.

Choose sitting on that couch watching mind-numbing sprit-crushing game shows, stuffing fucking junk food into your mouth.

Choose rotting away at the end of it all, pishing you last in a miserable home, nothing more than an embarrassment to the selfish, fucked-up brats you have spawned to replace yourself.

Choose your future.

Choose life.

...

o sapo II

tenho a comunicar que também acho o sapo adsl uma grande merda.

segunda-feira, março 29, 2004

o sapo...

...é uma grande merda!

exacto... sim! esse mesmo: o sapo!

aquele portal de gente tão incompetente e inculta, que até hoje ainda não perceberam que o sapo é, na realidade, uma rã!

então no anúncio de televisão é vergonhosamente óbvio.

principalmente má aquela parte das homepages... uma verdadeira porcaria...

ora experimentem lá ir a http://ganeshgordo.no.sapo.pt.

(se conseguirem, fico verde de vergonha!)


domingo, março 28, 2004

domingos

domingo. início da noite.

estou lenta. apetece-me fumar um cigarro mas temo pelas dores de garganta. o nariz pinga e sinto este escritório gelado. a preguiça é tanta que me custa pôr os acentos nas respectivas letras. escrevo com uma mão, enquanto a outra serve de apoio ao queixo.

domingo... início de noite...

devia haver uma lei que proibisse os fins de tarde de domingo: são deprimentes.

sexta-feira, março 19, 2004

paixão literária

Bolero do coronel sensível que fez amor em Monsanto
Vitorino

Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada
Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome
Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão
Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer gemeste,
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos
Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete
Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto
A suor, a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada

Vitorino e António Lobo Antunes
(1992)

confesso: ando perdida de amores pelo lobo antunes.

estou-me a borrifar que o gajo seja arrogante, convencido, que despreze portugal, que publique os seus livros primeiro no estrangeiro e só depois cá, que escreva numa língua que não o português, que seja louco, pisocótico, estúpido.

paciência. não há nada a fazer! estou enamorada e pronto!

quarta-feira, março 17, 2004

outra grande dúvida...

... porque é que os homens coçam os tomates em público? volta-meia-volta lá estão eles com o mindinho ou o indicador...

e outra! e porque é que escarram para o chão, ali no meio da rua? com tanto ruído, que se pode ouvir um tipo a escarrar à distância de meia légua?


terça-feira, março 16, 2004



Balada para los poetas andaluces de hoy
Autor: Rafael Alberti

¿Qué cantan los poetas andaluces de ahora?
¿Qué miran los poetas andaluces de ahora?
¿Qué sienten los poetas andaluces de ahora?

Cantan con voz de hombre, ¿pero donde están los hombres?
con ojos de hombre miran, ¿pero donde los hombres?
con pecho de hombre sienten, ¿pero donde los hombres?

Cantan, y cuando cantan parece que están solos.
Miran, y cuando miran parece que están solos.
Sienten, y cuando sienten parecen que están solos.

¿Es que ya Andalucia se ha quedado sin nadie?
¿Es que acaso en los montes andaluces no hay nadie?
¿Qué en los mares y campos andaluces no hay nadie?

¿No habrá ya quien responda a la voz del poeta?
¿Quién mire al corazón sin muros del poeta?
¿Tantas cosas han muerto que no hay más que el poeta?

Cantad alto. Oireis que oyen otros oidos.
Mirad alto. Veréis que miran otros ojos.
Latid alto. Sabreis que palpita otra sangre.

No es más hondo el poeta en su oscuro subsuelo.
encerrado. su canto asciende a más profundo
cuando, abierto en el aire, ya es de todos los hombres.

***************************************************
esta é das tais que me arrepiam os cabelinhos da nuca.

segunda-feira, março 15, 2004

tricas, dotícia e rolmo

sempre gostava de saber onde é que ela vai arranjar estes nomes deliciosos??

se eu fosse católica, pedia-lhe para ser madrinha dos meus filhos: haveria de lhes dar nomes únicos e fantásticos e contar-lhes as suas maravilhosas histórias de encantar...

bin laden visto no martim moniz

pelas notícias de hoje, parece que o país está ansioso por ser o próximo alvo de atentados bombistas...! ele é ameaças terroristas para aqui, ele é mensagens com avisos para ali... o primeiro ministro fala, o presidente declara, os dois ministros sem pasta alertam, a oposição opina e a imprensa alarma!

sim senhora!!

quarta-feira, março 10, 2004

ganesh

fumando

nunca deveria ter virado à direita no semáforo, em direcção à bomba de gasolina.

nunca deveria ter estacionado o carro.

nunca deveria ter saído do carro com 2,05€ no bolso e pedido um maço de português azul.

nunca deveria ter comprado tabaco depois de dois a tentar deixar de fumar.

fumando, escrevo agora estas palavras...

que merda! tenho de deixar de fumar... isto é mesmo um vício....!

quarta-feira, março 03, 2004

quando ela tinha nove anos

sempre que lhe falo de música portuguesa ou música brasileira, faz uma ar de indiferença. não comenta. não gosto, diz. há uns tempos atrás prometi-lhe gravar um cd com as minhas músicas brasileiras predilectas. cobrou-me a promessa, infinitamente adiada umas quantas vezes... agora que tenho gravador de cds, tenho de começar a fazer a selecção. vai demorar. tenho de a deixar deliciada com a música brasileira.

ate porque eu fazia um ar enjoado e enfadado sempre que a ouvia falar da stevie nicks. que horror, não gosto nada dessa tipa, dizia-lhe eu, principalmente daquela úsica, o i can't wait, que sempre teve o condão de me irritar, desde miudinha. hoje gosto de stevie nicks. dei por mim aos 21 anos sentada num bar em nova york a tentar ver e ouvir a espantosa reunião dos fleetwood mac no the dance, depois do empregado ter exigido ver os nossos passaportes antes de nos servir uma simples cerveja. hoje gosto muito de stevie e muitas vezes ouço as suas músicas preferidas, que ela me gravou em cd logo que pode.

por isso o meu espanto quando, na sexta passada, no meio de uma acesa discussão ao som do álbum roberto carlos, quando se indignava com o facto de eu e clara gostarmos das baleias, apoiando as frases de escárnio da rita, soltou um berrinho, parou e emocionou-se exclamando eu adoro esta música!!!! com um copo de vinho na mão e sorriso pateta de felicidade cantava baixinho a letra daquela música até há poucos minutos tão brega do roberto carlos. cantava concentrada, deslumbrada por ainda se recordar da letra toda, a letra da cama e mesa do roberto carlos. cantava concentrada enquanto o resto da casa a olhava maravilhada (eu) ou rebolava a rir no meio do chão (rita).

vera, a terceira estarola, descobria que afinal a música não é só anglo-saxónica e moderna e que, algures no brasil, um velho ídolo católico ferveroso a fazia regressar aos seus nove anos, no tempo em que ouvia os singles dos pais vezes e vezes sem conta.


Cama e mesa

Eu quero ser sua canção, eu quero ser seu tom
Me esfregar na sua boca, ser o seu batom
O sabonete que te alisa embaixo do chuveiro
A toalha que desliza no seu corpo inteiro
Eu quero ser seu travesseiro e ter a noite inteira
Pra te beijar durante o tempo que você dormir
Eu quero ser o sol que entra no seu quarto adentro
Te acordar devagarinho, te fazer sorrir

Quero estar na maciez do toque dos seus dedos
E entrar na intimidade desses seus segredos
Quero ser a coisa boa, liberada ou proibida
Tudo em sua vida

Eu quero que você me dá o que você quiser
Quero te dar tudo que um homem dá pra uma mulher
E além de todo esse carinho que você me faz
Fico imaginando coisas, quero sempre mais

Você é o doce que eu mais gosto
Meu café completo, a bebida preferida e o prato predileto
Eu como e bebo do melhor e não tenho hora certa
De manhã, de tarde, à noite, não faço dieta

Esse amor que alimenta minha fantasia
É meu sonho, minha festa, é minha alegria
A comida mais gostosa, o perfume e a bebida
Tudo em minha vida

Todo homem que sabe o que quer
Sabe dar e querer da mulher
O melhor e fazer desse amor
O que come, o que bebe, o que dá e recebe

Mas o homem que sabe o que quer
E se apaixona por uma mulher
Ele faz desse amor sua vida
A comida, a bebida, na justa medida

O homem que sabe o que quer
Sabe dar e querer da mulher
O melhor e fazer desse amor
O que come, o que bebe, o que dá e recebe

Mas o homem que sabe o que quer
Sabe dar e querer da mulher
O melhor e fazer desse amor
O que come, o que bebe, o que dá e recebe

Mas o homem que sabe o que quer
E se apaixona por uma mulher
Ele faz desse amor sua vida
A comida, a bebida, na justa medida?


Roberto Carlos - Erasmo Carlos
(1981)

terça-feira, março 02, 2004

não pode ser...

proibo-me de ler os textos da minha irmã no emprego. corro o sério risco de desatar a chorar ao pé do gordo jovem administrativo que passa horas a tirar fotocópias, mesmo aqui ao meu lado. ou da rapariga grávida de quatro meses que segura a barriga num gesto de ternura...

não pode ser...