quarta-feira, dezembro 24, 2003

a minha prenda de natal

A banda
Chico Buarque/1966

Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Para ver, ouvir e dar passagem

A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela

A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar cantando coisas de amor

Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou

E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor

*************
espero que tenham gostado...!

sexta-feira, dezembro 19, 2003

when God closes a door, he always opens a window

quando era miúda vi vezes sem conta o música no coração, com a maria e o captain von trapp e os sete pequenos tenores. a dada a altura, ainda no início do filme, a madre superiora diz "when God closes a door, he always opens a window", frase que a maria repete várias vezes ao longo do filme e que acaba por ser seu final.

no início desta semana, achei que Deus (ou alguém chamado matias), me tinha aberto uma imensa e larga janela. mas este bem estar sofreu um leve revés: na semana em que comecei a trabalhar, o meu carro, parado e estacionado, foi abalrroado por um bêbado qualquer, e ficou impossibilitado de abrir a porta do lado do pendura e, ontem, foi o único violentamente assaltado na íngrime rua de s. marçal, mesmo em frente ao britânico! um agarrado partiu o vidro, antes disso forçou a porta, roubou-me o rádio (o filha da puta!!), levou-me o cd das cassia eller que a clara me tinha oferecido na noite anterior (o merdoso do filho da puta!) e o cd dos tribalistas que o manel me deu antes de irmos para férias (o caralho do merdoso do filho da puta!). ainda me revirou o carro de alto a baixo, levou-me os óculos escuros preferidos, enquanto dava duas ou três peidolas lá dentro...

a saber: às vezes, quando alguém abre uma janela, deve-se ter cuidado para não levar com a porta na cara!
anda alguém aos pulos na casa de baixo ou no sotão.

as luzes tremem um pouco, às vezes.

caralho, quem será?! a fazer um chavascal destes logo na noite de sexta feira que quero ir cedo para a cama???

afinal...!

o gajo sai ou não sai??

ha! já me esquecia...

vou voltar a descontar 11% do meu rendimento mensal para a segurança social.

segunda-feira, dezembro 15, 2003

segredos & mentiras



no meio do meu mau feitio, da minha personalidade (alegadamente) assertiva e seca, da minha eterna recusa em me assumir como nativa de caranguejo, supostamente maternal e protectora, descubro-me muitas vezes sentimental, sensível e lamechas pensando nos filmes que me põem de bem com a vida.

este é um deles. um drama familiar numa inglaterra chuvosa, o encontro de uma mãe com uma filha, a distância entre irmãos, os ódios entre cunhadas, o silêncio de refeições partilhadas, a vergonha, a cobrança, os segredos, as mentiras. todas as famílias têm os seus segredos e as suas mentiras, o seu pequeno microcosmos de drama, comédia, alegria e tristeza. esta é a história de uma família, de muitas famílias, todas elas potenciais argumentos para belos filmes do mike leigh.

quinta-feira, dezembro 11, 2003

sarmentinho

então um dos ministros de porra nenhuma muda de visual, deixa crescer a barba e eu não sabia? será que também anda a ter aulas de dicção para aliviar os rrrrs do seu discurso?

se...

a memorável frase de mafadant (é assim que pronuncio mas não sei se é assim que se escreve) dedicada ao meu amigo sérgio, há 12 anos atrás.

mafandant - o rufia do meu bairro suburbano, que roubava os miúdos, assustava as miúdas, sempre baixo, sempre atarracado, sempre andando devagar, a gingar, sempre falando num misto de pronúncia africana, arrastada, nasalada que soava desajeitada naquela cara morena de cigano, com olhinhos pequeninos e barba rala salteada nas faces.
dando uns bafos numa ganza, semicerrando os olhos.

sérgio - na altura um miúdo de 16 anos, miópe, com uns óculos que lhe escondiam os olhos azuis, de calças de ganga de marca, que comprará durante toda a sua vida, com a camisinha aos quadradinhos e gola branca da t-shirt a espreitar, acabado de fumar os seus primeiros cigarros e já com os acentuados laivos de arrogância que assume ter.
fumando um cigarro sobranceiro.

- eh pá, se eu tivesse a tua cara de beto... fodia taaanta gaja boa!

por outras palavras: dá Deus nozes a quem não tem dentes!

segunda-feira, dezembro 01, 2003

sexta-feira, novembro 28, 2003

o primeiro dia

Acabou. Acabou-se. Expulsaram o polvo da minha vida, as suas ventosas já não me prendem a nada, deixaram-me no vazio. É estranha esta sensação de libertação. É amarga porque queria ter sido eu a expulsar o polvo da minha vida: queria desenlear-me sozinha dos seus braços compridos, que me emaranhavam numa teia de estupidez, frustração e incompetência, arrancar-me do seu novelo burocrático e patético, libertar-me dele e da sua lógica ilógica.

A frustração é-me aplacada pela sensação de alívio, de leveza das horas, agora mais soltas, agora mais minhas. Há um outro sentimento que se impõe a curto prazo, que olho de relance e a medo, um sentimento de incerteza no futuro, de vazio das horas, das tais que hoje passam a ser só minhas e de mais ninguém. Mas não desanimo, nunca desanimarei porque, a toda a hora, cantarei comigo esta canção:

A principio é simples, anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado, que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso, por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio

e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vazia
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.

Sérgio Godinho
Pano Cru
(1978)

fim

este é o meu último post feito através do trabalho.

que alívio...!

quarta-feira, novembro 26, 2003

mulheres

eu gosto do público. informa, aponta, denuncia.

numa altura em que se fala de violência doméstica, violência contra as mulheres, volto a ler este dossier e continuo a não entender estas realidades.

terça-feira, novembro 25, 2003

a causa

esta gente diz que tem uma causa, uma causa que é deles, "uma causa-nossa".

que causa é essa? "(...)ser uma referência na esfera bloguística."

só um blog com a sempre-que-abro-a-boca-só-digo-disparates ana gomes, o coitadinho-de-mim-que-tenho-de-explorar-a-relação-tramada-com-o-meu-pai-para-vender-uns-livros luis osório (sobre quem tenho mais umas quantas teorias), o ex-jornalista-ex-director-de-jornal-ex-realizador-actual-deputado-socialista vicente jorge silva, o ex-companheiro-do-anterior-deputado-ex-director-de-agência-noticiosa-e-agora-quem-é-que-me-quer jorge wemans, o eu-sou-uma-sigla-com-mais-relevância-que-a-companhia-de-electricidade eduardo prado coelho, entre outros, poderia ter uma causa tão pretenciosa.

até metem pena...!

sexta-feira, novembro 21, 2003

arranja-me um emprego

Arranja-me um emprego
pode ser na tua empresa
concerteza
que eu dava conta do recado
e para ti era um sossego

Sérgio Godinho
Campolide
(1979)


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é o que preciso a partir do dia de hoje.

quinta-feira, novembro 20, 2003

Etelvina I

Etelvina já cansada de viver sem ninguém

a não ser de vez em quando amores de vai e vem

pôs um anúncio no jornal que dizia assim

mulher desembaraçada

quer viver com alma irmã

de quem não seja criada

de quem não seja mamã


Sérgio Godinho
À Queima Roupa
(1974)

respeitem os seus cabelos brancos

mulher eu sei


eu sei como pisar

no coração de uma mulher

já fui mulher eu sei

para pisar no coração de uma mulher

basta calçar um coturno

com os pés de anjo noturno

para pisar no coração de uma mulher

sapatilhas de arame

o balé belo infame

para pisar no coração de uma mulher

pés descalços sem pele

um passo que a revele

Chico César
Aos Vivos (1994)

uma cena de fadas

todas as manhãs levanto-me, tomo banho, visto-me, lavo os dentes, arranjo a mala, envio um sms à raquel a dizer que estou a sair de casa, escolho o anel, escolho os brincos e olho o meu belo adormecido adormecido na cama. todas as manhãs olho-o e pergunto-me "como é que eu posso deixar este belo adormecido sozinho nesta cama?". todas as manhãs faço-lhe uma festinha na cara e beijo-o, ora num longo, ora num instantâneo beijo de acordar, de bom dia, de já é hora, já passam das nove... todas as manhãs ele abre os olhos, olha-me, boceja e espreguiça-se enchendo a cama de braços esticados.

todas as manhãs vivo um conto de fadas, beijando e despertando o meu amor belo e adormecido.

quarta-feira, novembro 19, 2003

fausto

o fausto tem um cd novo! o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!o fausto tem um cd novo!

ena! ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!ena!

que excitação...!

em família

Desde 1976, uma família argentina fotografou-se todos os anos, sempre no mesmo dia, na mesma posição e no mesmo lugar.

salamaleques arabescos

não gosto das pessoas que se escondem atrás das palavras, que sarapintam os sentimentos de acessórios rococós que encandeiam o mais atento leitor. não quer isto dizer que não gosto de poesia. leio-a através das músicas e canto-a com sons, fonemas e interjeições. mas notem: o vinicius de morais não se entrega ao salamaleques arabescos para escrever sobre o amor, nem o fausto, nem o tom jobim, nem o camões, nem o fernando pessoa, nem o chico buarque, nem o jacques brel. qualquer pessoa os lê e os compreende...